Mulher Maravilha embaixadora da ONU?

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FOTO: Carlo Allegri/Reuters | FONTE: UOL

Mês passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) concedeu à personagem fictícia da DC Comics Mulher Maravilha o título de Embaixadora Honorária para o Empoderamento de Meninas e Mulheres. A nomeação acontece em ocasião dos 75 anos da personagem, completados em 2016, e contou com a participação das atrizes Lynda Carter e Gal Gadot, respectivamente intérpretes da heroína na série de TV clássica e no cinema atual.

Apesar da homenagem ter sido celebrada por alguns, muitas pessoas ligadas a organizações feministas protestaram contra a decisão, alegando que o título poderia ter sido concedido a uma pessoa real e não a uma personagem que ainda hoje é objetificada pela cultura pop.

Assim, é possível nos perguntar: o que a Mulher Maravilha representa hoje? Como essa decisão simbólica ajudaria, de fato, no empoderamento de meninas e mulheres? Para responder a esses e outros questionamentos, conversamos com Jaqueline Cunha, mestra em Estudos da Linguagem, autora da dissertação intitulada “A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha”.

LADY’S COMICS: Recentemente a Mulher Maravilha foi escolhida para ser embaixadora de uma campanha da ONU para empoderar mulheres, como pesquisadora da personagem, você acha que a escolha foi acertada?

Sim! As possibilidades de diálogo da super-heroína com as várias camadas sociais, culturais e geracionais (idade) faz com que a Mulher Maravilha seja uma escolha acertada – mesmo se considerarmos as contradições no âmbito do texto e ilustrações. A mensagem da super-heroína, nos anos iniciais pelo menos, era clara: nós mulheres podemos fazer qualquer coisa; O que precisamos é receber o mesmo incentivo e oportunidade que os homens recebem. As mulheres maravilha da Ilha Paraíso, local onde as amazonas viviam, foram educadas para serem independes e estarem no controle das próprias vidas. Em virtude disso, elas se tornaram cientistas, intelectuais, mulheres fortes e independes. A Princesa Diana foi apenas uma das mulheres maravilha que foi para o “mundo dos homens” e se tornou a Mulher Maravilha que conhecemos.

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LADY’S COMICS: O quê a mulher maravilha representa hoje, no atual contexto da sociedade e da cultura pop? A compreensão sobre ela é diferente da época em que a personagem foi criada?

Ainda hoje a Mulher Maravilha é uma personagem impactante e celebrada. Ela é o símbolo da mulher empoderadora, mesmo com todas as contradições no interior das produções quadrinísticas.

A forma de perceber a personagem depende do lugar social/intelectual da recepção/consumidor. Mulher Maravilha foi um produto criado para inspirar mulheres e erotizar os homens. Penso que ainda hoje ela cumpre esse duplo papel, em maior ou menor proporção, dependendo do roteirista e do ilustrador. Certamente o impacto hoje é diferente do experimentado nos anos iniciais já que na época do seu debute (1941) poucas eram as super-heroínas (personagens ficcionais ou reais) que possibilitavam a identificação entre leitoras e personagens.  Hoje, sua visibilidade é maior. Ela encontra uma recepção feminina muito mais diversa e crítica e por isso mesmo atenta às ambiguidades da personagem.

LADY’S COMICS: Na sua opinião, porque a ONU resolveu lançar mão de uma personagem fictícia para empoderar meninas e mulheres? Como a representação da Mulher Maravilha inspira essa decisão? 

Penso que a escolha de Mulher Maravilha pela ONU tenha sido motivada pela carga simbólica da personagem mundialmente conhecida. A super-heroína é uma referência para mulheres, um produto cultural de fácil aceitação cuja associação com algumas faces do feminismo transcende as páginas das HQs. O filme da personagem que será lançado em 2017 também projetou ainda mais a personagem. Nesse sentido, a ONU surfa na onda da indústria cultural com o objetivo de alcançar a maior atenção possível, principalmente da juventude.

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LADY’S COMICS: Na sua opinião, como o impacto da escolha da mulher Maravilha pode influenciar o sentimento de representatividade de meninas? É positivo, negativo?

Mulher Maravilha é uma produção ambígua. Seduz as mulheres como modelo de mulher forte e independente e os homens pelas belas formas físicas. Empodera e objetifica ao mesmo tempo. Mas mesmo considerando estes aspectos, tendo a acreditar que o saldo positivo pode ser maior que o negativo, pois ela é hoje um símbolo para nós mulheres e não apenas uma mascote para ONU. No entanto, é importante ressaltar que a causa das mulheres é bastante ampla e envolve mulheres reais e batalhadoras, brancas e negras, lésbicas, trans e héteros. Mulher Maravilha não deve ofuscá-las, tampouco ser a única expressão possível da luta das mulheres contra o machismo sistêmico.

LADY’S COMICS: Apesar da decisão ter sido aplaudida por alguns, muitas pessoas ligadas ao movimento feminista e a organizações feministas criticaram bastante a escolha. No seu entendimento, você concorda, discorda das críticas ou acha que é um passo importante?

Toda essa discussão sobre representatividade ou não representatividade é importante. O burburinho nas redes sociais faz com que mais mulheres sejam levadas a pensar sobre o assunto da representatividade da luta das mulheres.  Como eu disse, a personagem é ambígua e não pode ser visto como a referência absoluta das mulheres. Entretanto, as representações femininas empoderantes que a personagem incorpora podem alcançar muitas pessoas. Acredito também que a questão possa pressionar a indústria dos quadrinhos no sentido da inserção de maior número de personagens que representam não apenas um grupo privilegiado, mas as mulheres negras, as lésbicas, as transexuais, as que não se enquadram nos padrões de beleza, etc.

Em outubro, a personagem, de 75 anos, foi nomeada em meio a divergências entre organizações feministas.

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