Para tudo, um começo

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Fazer texto sobre um quadrinho tão lindo (e de uma amiga) parece tarefa fácil, mas, acredite, não é. Li “Quando tudo começou” 3 vezes. A primeira foi numa velocidade exagerada, do tipo que a gente tem quando come doce escondido, sabe? Mas já aviso que essa não é a maneira mais adequada quando se trata de um trabalho da quadrinista Lu Cafaggi. É injusto passar tão rápido por tantos detalhes colocados ali propositalmente. Por isso, li novamente: para não ser mal educada com os cuidados pensados pela autora para cada cantinho da história. Já sobre a terceira vez, li pela cara de pau de gostar demais mesmo. E, claro, depois de ser cativada pela trilha sonora ao final. Oi? Sim, tem uma.

É tudo sobre a sonhadora blogueira Bruna Vieira em sua adolescência. Mas, numa boa, é tudo mesmo sobre muitas de nós ao enfrentarmos certos medos próprios dessa fase da vida. O processo de se conhecer não é fácil e, com isso, vem ainda mais probleminhas: lidar com as expectativas, não saber o que estar por vir, qual o próximo passo, como agir e por aí vai. Essa lista pode ser bem longa. No caso, o gatilho para as dúvidas foi uma nova escola. Aliás, pegue o que eu disse e coloque no fator “escola”. Quase todo mundo tem um caso pra contar ocorrido no mesmo cenário que o da Bruna, né?!

brunaescola

Mineira, criou um blog aos 15 anos como uma forma de desabafo e plataforma para seu amor por escrita. Fez tanto sucesso que atualmente tem vários livros e milhares de fãs que se identificam com suas publicações. Mas todo mundo tem um começo, certo? E a Lu Cafaggi foi convidada pela editora Nemo para contar o da Bruna. Com uma história que se passa em praticamente um dia, mas com um turbilhão de sentimentos, como um bom verdadeiro dia de um bom e verdadeiro jovem.

A Lu me falou um pouquinho sobre como foi fazer esse trabalho:

“Procurei fazer um livro não tão amarradinho, porque ele é sobre uma vida de verdade. Eu costumo gostar mais de ler histórias que respeitam o fato de que a vida de verdade da gente não é amarradinha. De um só momento da vida de uma pessoa, várias histórias diferentes podem ser contadas. E é muito raro que essas histórias se encaixem, que uma única coisa seja uma consequência direta de uma outra única coisa. É muito raro que a gente viva os momentos presentes (geralmente a gente fica passando pelos dias com a cabeça lá atrás ou lá na frente). É muito raro que a gente sinta uma única emoção por horas inteiras. Então é bem difícil amarrar as coisas sem, ao mesmo tempo, achatar a vida das coisas. Quando a gente respeita a bagunça da vida, acho que esse é o melhor caminho pra contarmos uma história sem limitar a experiência do leitor. Acho que o autor tem de desenhar os caminhos e não os pontos de chegada.”

2016-03-30

Sempre que faço textos assim, tenho um medo danado de, empolgada, contar demais. Mas em relação a esse, quero muito ressaltar dois temas importantes tocados pelo quadrinho e um tema ausente, também assunto sério.

1º Sororidade. Do começo ao fim, ficamos sabendo que ela tem uma amiga, a Bel. Amizade que a ajuda a ver que é maravilhosa, a lembra-lá de que há problema em qualquer lugar, nós é quem devemos dar um jeito. Bel ainda escancara o talento de Bruna e a incentiva a mostrar para todos o que ela escreve e, principalmente, deixar que as pessoas conheçam a garota legal que ela é. Vamos resumir? Bel ativa a coragem que há em Bruna. Bola pra frente!

bel

2º Assédio. Não conheço, de verdade, nenhuma mulher que não tenha passado por um assédio quando nova (e que não siga passando pelo resto da vida). Ao andar pela rua, um homem mexe com a adolescente. Ela, por sua vez, se sente diminuída e repete para si mesma que não tem culpa. Repete várias vezes. E não tem mesmo. É de grande importância tratar sobre isso em uma HQ, principalmente em um trabalho que tem como público alvo meninas entre 14 e 18 anos. Não podemos ter medo do assunto. Ele existe, é diário e afeta a tantas de nós. Vamos falar a respeito até que todas saibam que não estão sozinhas. Vamos lutar contra esse problema.

nao culpa

3º Relacionamento amoroso na adolescência. Esse, no caso, é o tal assunto ausente. Lu quebrou o esteriótipo de que as adolescentes só falam de namoros (ou ficantes? Tô velha). Elas passam por tantas transformações, buscas e aprendizados que, é inocente quem pensa que se trata apenas de relacionamentos. Eles vão acontecer naturalmente, com meninos ou meninas, do jeito que tiverem que ser. Isso é pessoal e não é irrelevante. Mas, cá entre nós, a minoria dos trabalhos para os jovens tomam esse cuidado de priorizar outras partes das vidas deles.

No mais, não quero revelar muito os segredos que andam pela obra. Tem coisa demais, umas minúcias como as expressões de Bruna, seus sonhos, sua criatividade, a forma como ela diminui ou cresce de acordo com seus sentimentos, os colegas a partir de seu olhar, uma receita de bolo e os capítulos baseados em nomes de livros escritos por mulheres! Claro, como eu disse, também tem uma trilha sonora escolhida a dedo pela autora. Nem vou falar muito dela. Leia o quadrinho, escute as músicas e me conte o que achou! Se já fez tudo isso, me conte também.

descritos

Como eu disse: detalhista, a Lu pensou mesmo em tudo. <3

Alguns links:

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