Pat Patriot: Mulher, operária e patriota

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Nos “Anos de Ouro” (The Golden Age) dos comics estadunidenses, centenas de personagens de Histórias em Quadrinhos (HQs) foram criadas e lançadas em jornais e revistas. As HQs estavam em uma fase de grande popularidade. Surgiram muitos estúdios especializados na sua produção para atender à demanda do público e das próprias editoras.

Em 1940, nos Estados Unidos, quase todas as HQs faziam, de alguma forma, referência à II Guerra Mundial. Aos já tradicionais heróis e heroínas, uniam-se soldados que enfrentavam nazistas no front ou mesmo em solo estadunidense. Batalhas eram travadas na terra, no ar e no mar. A II Guerra Mundial foi, sem dúvida, um dos maiores estímulos para a indústria dos comics.

As heroínas patriotas surgiram com o objetivo de inspirar homens e mulheres. Elas possuíam um elemento subjetivo, uma característica que, segundo Mike Madri (2013), só existe neste período: as mulheres tinham um papel exclusivo em tempos de Guerra que era o de servir de símbolo de inspiração e esperança. É o caso da personagem criada em 1941, Pat Patriot.

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Patrícia Patrios trabalhava numa linha de montagem de aviões, da Malliton Airplane. Já num dos primeiros quadrinhos, o autor deixa claro ao leitor que, como os homens, as mulheres estavam trabalhando sob as ordens do governo. Ou seja, foram convocadas a servir o país, em pé de igualdade com os homens, pelo menos no que diz respeito ao trabalho fabril.

Em seguida, temos Patrícia amparando uma colega de trabalho, que sente tonturas e reclama da exaustão. Ao defendê-la, ela acaba sendo demitida pelo capataz. Uma noite, ao voltar para sua casa após participar de uma apresentação de teatro, trajando uma roupa que fazia dela uma versão feminina do Tio Sam, ela descobre uma operação de sabotagem na fábrica onde trabalhava e descobre que o mesmo homem que a demitiu fazia parte de uma quadrilha de sabotadores. Patrícia, então, impede o roubo de motores de avião.

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Pat Patriot prende os sabotadores e é ovacionada pelos operários da fábrica – DAREVIL Comics. New York. Your Guide Publications, INC., vol. 01, n.02, 1941,p 57.

Nascia “Pat Patriot”, a Joana D’ Arc Americana, em agosto de 1941, nas páginas da Daredevil Comics. Seus criadores foram Charles Biro e Bob Wood. Suas aventuras, num total de dez, foram publicadas até junho de 1942. Ela não tinha habilidades especiais, mas acabou dedicando suas aventuras a combater agentes nazistas, gângsteres e outros inimigos do sonho americano.

A personagem não tem aparentemente poderes especiais. Mas, suas histórias levam o leitor a concluir que suas ações eram guiadas pelo espírito da liberdade, que inspiraria outros heróis e heroínas patriotas. Em 1941, “Pat Patriot” tornou-se um símbolo do espírito de luta estadunidense. Seu surgimento antecede o da Mulher Maravilha e antecede, também, a entrada dos Estados Unidos na Guerra, o que só aconteceria meses depois.

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Pat Patriot, em sua aventura de origem – DAREVIL Comics. New York. Your Guide Publications, INC., vol. 01, n.02, 1941,p 52.

Na sua página de apresentação, na revista Daredevil Comics #02, Pat Patriot aparece como a representação do espírito da liberdade, simbolizado os Estados Unidos e fazendo uma referência à Estátua da Liberdade. Repare que ela segura em sua mão direita uma tocha e está sendo seguida por uma legião de trabalhadores. Ao lado, estão as seguintes palavras: The spirit of 1941 – similar to that of ’76 – is embodied in a young girl who rises above the ranks to lead her people in ridding our country of it’s enemies… (O espírito de 1941 – semelhante ao de 1776 – é incorporado em uma jovem que se eleva acima das fileiras para liderar seu povo na tentativa de libertar o nosso país de seus inimigos… ).

A citação é uma referência direta à independência dos Estados Unidos, quando os colonos lutaram contra a opressão fiscal da metrópole e conquistaram sua emancipação. Naquele momento, o espírito da liberdade, que envolveu a jovem Patrícia, lutava contra outro tipo de opressão: as ditaduras totalitaristas. Tal como a donzela guerreira francesa, Pat Patriot apresentava-se como a inspiração para a população estadunidense.

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Pat Patriot é justamente o que o nome sugere: uma patriota disposta a sacrificar-se em nome do país. Antes mesmo de se tornar uma heroína, ela desempenha seu papel, trabalhando em uma linha de montagem. Ela é uma representação feminina cujo objetivo é inspirar homens e mulheres a colaborarem com o esforço de guerra.

Tal como ocorrera durante a I Guerra Mundial, as mulheres foram chamadas a substituir os homens em várias tarefas, especialmente nas fábricas de armamentos, controladas pelo governo. Ao término do conflito, no entanto, elas deveriam retornar a seus lares e se tornariam, novamente, mães, filhas e esposas.

Segundo Nigel Cantwell (2011), em seu artigo “Ungle Sam’s Favourite Niece”, Pat é uma heroína que representa um grupo que, até então, não protagonizava histórias em quadrinhos de aventura: ela era uma operária. Uma trabalhadora fabril que assume para si o dever de combater a injustiça. Ela representa homens e mulheres que realizavam longas jornadas de trabalho nas fábricas estadunidenses nos anos de 1940. Entretanto, Pat Patriot não reivindica os mesmos direitos dos homens para as mulheres, mas a igualdade de deveres: ambos são igualmente capazes de contribuir com o país.

Bibliografia

CANTWELL, Nigel. “Ungle Sam’s Favourite Niece”. In. The Pat Patriot Archive. A bad Kitty prodution. July 4, 2011.

MADRID, Mike. Divas, Damages & Daredevils: lost heroines of Golden Age. [Minneapolis?]: Exterminating Angel Press, 2013.

VIANA, Nildo. Heróis e super-heróis no mundo dos quadrinhos. Rio de Janeiro: Achiamé, 2005.

Revistas em Quadrinhos

DAREVIL Comics. New York. Your Guide Publications, INC., vol. 01, n.02.

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