Prêmio Jabuti e a ausência das quadrinistas

Por Lovelove6

O Prêmio Jabuti foi realizado pela primeira vez em 1959 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), uma associação civil sem fins lucrativos que, por meio de iniciativas como o prêmio literário, procura promover a leitura, valorizar e ampliar o mercado editorial brasileiro. O Jabuti conta atualmente com 29 categorias de premiação bastante diversas, de “Romance”, “Projeto Gráfico”, “Infantil digital” à “Teoria/crítica Literária, Dicionários e Gramáticas” e de forma inédita, em 2017, “Histórias em Quadrinhos”. Atualmente ele é o prêmio brasileiro de histórias em quadrinhos mais generoso, ofertando um valor de R$3.500,00 para o vencedor ou a vencedora da categoria.

Os finalistas de 2017 foram recentemente divulgados e, sem surpresa, na mesma perspectiva que praticamente todos os outros prêmios literários no Brasil, a discrepância entre a quantidade de mulheres indicadas em comparação à quantidade de homens é flagrante. A escritora Jarid Arraes fez a conta em seu perfil no Facebook: de 10 indicados, na maioria das categorias o número de mulheres não passa de 03. Na categoria de histórias em quadrinhos apenas 01 autora foi indicada entre 09 autores homens, a Sirlene Barbosa com sua obra “Carolina“, que retrata a vida da escritora Carolina Maria de Jesus, lançada pela editora Veneta . Ainda que o tradicional e naturalizado machismo do mercado editorial brasileiro seja um forte fator para a manutenção da tímida presença de autoras no Jabuti em 2017, no caso da categoria de histórias em quadrinhos há outros fatores a serem considerados para justificar a ausência das autoras mulheres.

No regulamento do Prêmio Jabuti, consta na sessão “V das Inscrições”:

5.2.1 São os seguintes os valores das taxas de inscrição:
5.2.1.1 No caso de obra individual, por obra e por categoria na qual a mesma for inscrita:
5.2.1.1.1 R$ 285,00 (duzentos e oitenta e cinco reais) para associados CBL.
5.2.1.1.2 R$ 370,00 (trezentos e setenta reais) para associados de entidades congêneres.
5.2.1.1.3 R$ 430,00 (quatrocentos e trinta reais) para não associados.

Para uma autora de HQ concorrer ao Jabuti, é necessário que ela pague, por obra, R$430. A não ser que essa autora seja associada da Câmara Brasileira do Livro, cuja mensalidade é de R$140. Nesse caso ela pagaria R$285 por obra inscrita no Jabuti. Os valores das taxas de inscrição do Jabuti e de associação à CBL são muito caros para autoras de histórias em quadrinhos cuja realidade no Brasil, com exceção de umas ou outras, é de profissionais autônomas que se autopublicam independentemente de editoras. Observe que para os autores homens que se autopublicam também não está muito mais fácil: apenas um autor independente é finalista na categoria de HQ, o Gidalti Oliveira com “Castanha do Pará”.
Existe dentro do regulamento do Jabuti um plano de desconto progressivo, ainda na sessão V:

5.2.1.3 Desconto progressivo para grupo de inscrições:
De 10 a 30 inscrições: 5% sobre o valor total
De 31 a 60 inscrições: 10% sobre o valor total
De 61 a 100 inscrições: 15% sobre o valor total
Mais de 100 inscrições: 20% sobre o valor total

Quem aproveita esses descontos são as editoras que têm um bom volume de obras para inscrever na competição. Parece que precisamos das editoras para conseguirmos um acesso maior ao Prêmio Jabuti, mas quantas editoras tem autoras brasileiras de hq em seus catálogos? Ninguém contou ainda os números oficiais, mas é raro ouvir falar em editoras publicando obras autorais de mulheres brasileiras. Mesmo as editoras mais próximas e conhecidas no mercado de quadrinhos têm muito poucas (ou nenhuma) autora em seu catálogo. Sem poder contar com as editoras, as autoras investem em se autopublicar e algumas até mantém micro editoras, trocam entre si serviços de revisão, design gráfico e distribuição, tentam fazer páreo com as editoras.

Em 2015, pudemos fazer bastante pressão no Prêmio HQMIX em relação à ausência de mulheres indicadas, especialmente porque seu regulamento não apresentava reais obstáculos à participação das autoras, tornando o machismo da instituição mais explícito. Não podemos ignorar que, apesar de termos construído alguns bons canais de articulação e promovido algum progresso na nossa inclusão e moral dentro do mercado, as autoras de quadrinhos, brasileiras e independentes, ainda estamos pouco decididas em nos profissionalizar, no sentido de nos envolvermos e nos responsabilizarmos pelas burocracias e políticas que envolvem tornar a ocupação de quadrinista uma profissão reconhecida e mais valorizada.
No caso do Prêmio Jabuti, algumas exigências do regulamento, como o código ISBN, revelam uma falha básica por parte das autoras independentes. Fato é que a maioria das autopublicadoras não tem cadastro no ISBN e isso é um problema que nós precisamos resolver se quisermos ter mais poder para fazer exigências às instituições como o Prêmio Jabuti. Pode ser inclusive importante que criemos esquemas para nos associarmos coletivamente a instituições como a CBL, se não temos condições de o fazer individualmente. E caso julgarmos que não é interessante para nós coletivamente nos associarmos às instituições tradicionais do mercado editorial, talvez devêssemos nos associar entre nós e enquanto instituição fazer uma bela pressão em cima das premiações, editoras e eventos.
Falando em associações, sabia que existem algumas associações de quadrinistas e cartunistas no Brasil, Como a ACB – Associação dos Cartunistas do Brasil? Como não lembrar da pretensiosa Academia Brasileira de Quadrinhos, a ABRAHQ. O que me parece é que apesar do machismo ser muito forte, as autoras de quadrinhos estão abrindo mão de um poder que elas poderiam reivindicar e exercer ao se organizar politicamente para além dos escrachos e manifestações contra discriminações e abusos.

Por enquanto, a história masculina das premiações, somada ao desinteresse das editoras, à realidade econômica e a essa “timidez profissional” da publicadora independente, autora de quadrinhos, torna improvável que vejamos um número maior de nós indicadas ao Prêmio Jabuti nos próximos anos. Mas não é como se estivéssemos de mãos atadas.

Lovelove6 é autora de histórias em quadrinhos e publica, desde 2013, em formato impresso e virtual. Também é uma das organizadoras da Dente Feira de Publicações, realizada, desde 2015, anualmente em Brasília, DF.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *