Quadrinistas pioneiras do Rio Grande do Norte

Quadrix

A primeira referência de quadrinista norte-rio-grandense que pude encontrar foi no zine paulista Quadrix* de março de 1985, que em homenagem ao Dia Internacional da Mulher publicou o Especial das Mulheres (Roteiristas e desenhistas da HQ nacional). Ao longo do fanzine quadrinistas de vários estados são citadas e, na página 39, fala-se de uma única quadrinista do Rio Grande do Norte: Jeane Barros dos Santos, (na época com vinte anos) que na verdade é carioca, mas no ano da publicação morava em Natal.

Cão Germano, ainda pequeno, acompanhado de uma cadela, sendo ameaçado.

Cão Germano, ainda pequeno, acompanhado de uma cadela, sendo ameaçado.

No Quadrix Jeane fala que começou a desenhar na infância, como todo mundo, mas tinha um forte interesse e nunca parou. Suas maiores influências eram as revistas em quadrinhos e os desenhos animados da televisão, principalmente da Disney e da Hanna-Barbera e a primeira HQ que desenvolveu foi em 1976. Mesmo tendo a preocupação em criar seu próprio estilo, reconhece a influência dessas obras no seu traço. Ela menciona a intenção de cursar Educação Artística em Natal para aprimorar a sua técnica, mas como não consegui contatá-la, não descobri se essa vontade se concretizou.

Germano – já crescido – desafia o velho inimigo.

Germano – já crescido – desafia o velho inimigo.

A autora fala de Germano (ou Herman, seu nome alemão), personagem que estava desenvolvendo: um cachorro dobermann que foi escondido pela mãe em um navio cargueiro da Alemanha nazista, enviado para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, por ela considerar ser um país de paz.

Milena Azevedo

Milena Azevedo

Vinte e um anos depois, em 2006, Milena Azevedo teve seu primeiro conto adaptado por Wanderline Freitas para uma HQ, Fracassos Falsos. Ela gostou do resultado e no mesmo ano escreveu pela primeira vez um roteiro pensado para uma história em quadrinhos, O Teste, desenhada por Wendell Cavalcanti e letrada por Wanderline (publicada em 2010 na revista Subversos, de São Paulo). Nessa época ela estava à frente da gibiteria Garagem Hermética Quadrinhos e mantinha contato constante com vários quadrinistas de Natal.

De uma leveza que não tem tamanho, página 1

De uma leveza que não tem tamanho, página 1

Desde os onze anos a Milena tem o hábito de escrever, primeiro com letras de músicas e o que ela chamou de “protótipos de roteiro”, onde criava histórias a partir de jogos do Atari e dramas existenciais – por influência dos filmes e dos livros que lia. Entre doze e treze anos escreveu o roteiro de algumas peças para as aulas de Educação Artística e na faculdade começou a escrever poemas. Publicou de forma independente os livros O perfil da águia e Prometeu Livre – um outsider no Olimpo e também participou de algumas coletâneas. Durante a época do mestrado começou a escrever contos, “então, faltava o quê? Faltava eu enveredar na escrita de HQs”, disse Milena.

De uma leveza que não tem tamanho, página 2

De uma leveza que não tem tamanho, página 2

O gosto pelas histórias em quadrinhos veio enquanto estudava História na faculdade, onde começou a se interessar pela pesquisa de HQs. Então em 2005, apesar da insistência alheia em dizer que se tratava de uma loucura, abriu a Garagem Hermética Quadrinhos, quando começou a se cercar de muitos desenhistas do estado. Ela relata que “foi gratificante descobrir como o RN tinha (e tem) tantos desenhistas bons. E foi mais gratificante ainda ouvir de alguns deles que a GHQ foi responsável por fazê-los retomar o gosto em produzir quadrinhos”. Milena menciona que a única mulher que viu fazendo quadrinhos na época foi a Tati Viana, que fez parte do coletivo Reverbo e publicou o zine Tudo depende da flexibilidade do rabo da lagartixa. Contudo, a produção de Tati era mais voltada para a ilustração do que para as HQs. Quem também estava começando a produzir era a mangaka Giovana Leandro, integrante da dupla EUDETENIS e nos últimos cinco anos aconteceu um aumento na produção feminina de quadrinhos no estado, a exemplo das autoras Ana Luísa Medeiros, Luiza de Souza e Renata Nolasco.

De uma leveza que não tem tamanho, página 3

De uma leveza que não tem tamanho, página 3

Milena também faz parte da curadoria da FLiQ (Feira de Livros e Quadrinhos de Natal) e apesar de depender da aprovação dos demais curadores do evento na hora de escolher os convidados, procura trazer mulheres para integrarem a programação, entre as quais já participaram as quadrinistas locais Giovana Leandro, AnaLu Medeiros, Luiza de Souza e Jackie Monteiro, além das participantes de outros estados, como Petra Leão, de São Paulo; Luyse Costa e esta que vos fala, ambas da Paraíba. Para 2016 talvez haja a participação de convidadas do selo Pagu Comics, do qual a Milena também participa. Mas apesar de tentar acompanhar a profusão de quadrinistas que aparecem no cenário nacional de HQs, confessa “não dar conta de acompanhar todos os nomes que vêm surgindo nessa velocidade avassaladora”. Ainda sobre sua curadoria na FLiQ, Milena fala:

Eu inseri o debate sobre as mulheres fazendo quadrinhos, numa mesa específica, em 2013, apenas para “marcar território”, mas sei que o ideal é seguir o caminho que o FIQ (de BH) tomou ano passado, inserindo mulheres em diversas mesas, falando sobre diversos temas. Eu mesma fui convidada a mediar a mesa Quadrinhos Poéticos, que trouxe Carol Rossetti, Bianca, Pedro Cobiaco e Alves. Porque, ao meu modo de ver, os festivais e feiras de quadrinhos devem convidar tanto artistas já consagrados quanto os novos nomes que estão surgindo, e também àqueles que vêm ralando há um certo tempo, com um trabalho bacana, mas que ainda não ganharam tanto destaque na mídia e/ou nas redes sociais, sem discriminação sexual, pois mais do que os artistas, o que se mostra é a sua arte.

Segundo ela, o maior desafio da sua carreira é ter o trabalho de roteirista reconhecido, pois é necessário estudar as regras de escrita do roteiro. Ler muitas HQs e desenhar bastante não são suficientes para se escrever uma história de sucesso, mas conhecer e dominar a estrutura do roteiro já é meio caminho andado. Outro contratempo é o de encontrar alguém para desenhar seus roteiros mais longos, alguns dos quais já foram escritos há quatro anos. Por isso teve que se dedicar apenas às histórias curtas para conseguir começar, o que considera o segundo ponto mais chato.

Além de roteiros, Milena também já fez letreiramento e diagramação de HQs. Entre 2006 e 2007 escreveu o que considera ter sido o seu primeiro roteiro propriamente dito, porque anteriormente entregava ao desenhista uma espécie de storyboard com bonequinhos palito. Um instante antes do adeus foi escrito a partir do argumento de Melina França e desenhado por Wendell Cavalcanti. Seus trabalhos foram publicados na coletânea local Maturi, nas nacionais Subversos, Máquina Zero, Imaginários em Quadrinhos e nas internacionais Zona Gráfica, BDLP e Zona Contacto. E do selo MBP, que criou junto ao chargista potiguar Rodrigo Brum, publicou O Guarda-vidas e participou das coletâneas Visualizando Citações e Fronteira Livre.

Visualizando Citações (2013) e Fronteira Livre (2015)

Visualizando Citações (2013) e Fronteira Livre (2015)

Black ET Blanc, produzido para a Zona Contacto, trata do preconceito racial, ainda muito forte no sul dos Estados Unidos do início da década de 1960. Antes das discussões levantadas por Martin Luther King sobre os direitos civis e a igualdade, a história é permeada pela música, “unindo uma trilha rocker/twister com Elvis, Chuck Berry, Chubby Checker (que eu adoro!)”, diz Milena. Apesar de guardar segredo sobre um “elemento surpresa”, diz que a premissa básica é “você só sente na pele o preconceito quando é vítima dele”. Black ET Blanc foi um dos ganhadores do Prêmio Moacy Cirne de Quadrinhos, da FUNCARTE em 2014 e deve ser publicado esse ano no Brasil e em Portugal, cuja versão tem um diálogo extra no último quadro. As referências principais da roteirista nos quadrinhos são primeiramente Will Eisner e em seguida Alan Moore. Mas o cinema e a literatura acabam tendo um peso maior na sua escrita.

IMG_0346

Milena Azevedo analisa o momento atual dizendo que já existe uma base para o surgimento de um mercado de quadrinhos no Brasil, pois com o aumento na produção o público também tem se voltado mais aos quadrinistas brasileiros, o que faz com que as editoras, tanto as maiores quanto as menores, invistam nos talentos nacionais. Quando iniciou seus roteiros, há dez anos, já era possível ver o início desse fortalecimento, com artistas independentes tendo aceitação pelos seus trabalhos, divulgados na internet e em convenções. “É bacana ver que após tanto esforço por reconhecimento e quebra de preconceito, se conseguiu realmente dar um grande e efetivo passo. Mas ainda falta muito a se fazer para que esse mercado iniciante se consolide”, relatou.

Eu sempre gosto de falar que persistência é a chave para se trabalhar com quadrinhos no Brasil. Se você acredita no seu trabalho e estuda constantemente para aperfeiçoá-lo, ele será visto. Pode demorar um pouco, por isso não desanime, persista. Auto-crítica também é algo necessário e ajuda bastante no amadurecimento como pessoa e como artista.

EUDETENIS

EUDETENIS

Em 2010 a mangaka Giovana Leandro produziu sua primeira HQ com o marido Paulo Morais, com quem forma a dupla EUDETENIS. Chegaram a apresentar a uma editora nacional, mas por problemas na comunicação com o editor e também por considerar que sua técnica ainda não estava satisfatória, transformaram a obra em uma novela. Contudo, ainda na infância Giovana já fazia suas histórias em quadrinhos com animais. Ela conta que em certo momento tentou estimular algumas desenhistas potiguares a produzirem HQs, porque a maioria dos quadrinistas locais eram homens, mas nunca rendeu frutos. A única que já chegou a conhecer foi a Milena Azevedo.

Chess Time, disponível no Tapastic em inglês

Chess Time, disponível no Tapastic em inglês

O EUDETENIS surgiu da vontade de desenhar profissionalmente, a partir do contato com quadrinistas profissionais na internet. Considerando que a arte feita é mais importante do que o nome ou o gênero, optaram por não utilizá-los: a Giovana não queria utilizar o seu próprio nome e na hora de criar uma página no Deviantart, o Paulo pegou esse de um e-mail que possuía. Talvez por não remeter a gênero ou raça, ela nunca sentiu nenhuma dificuldade ou discriminação pelo fato de ser mulher, seus maiores desafios foram relacionados à técnica ou à produção: “o difícil – no meu caso –  foi aprender a fazer quadrinhos, mas isso é um aprendizado eterno e nem hoje estou totalmente satisfeita”.

Pôster do jogo Neo Monsters.

Pôster do jogo Neo Monsters.

Seus três primeiros trabalhos pagos foram produzidos concomitantemente para três clientes distintos. Depois de aceitar esse desafio e entregar os quadrinhos, começaram a surgir propostas dos mesmos clientes e outros novos também surgiram. Entre os trabalhos comissionados não tem preferência por nenhum, mas gosta dos autorais que realiza com o Paulo. Sempre que há uma brecha entre os trabalhos contratados produz algo novo e disponibiliza gratuitamente no Tapastic. Na ilustração tem como maiores referências os trabalhos de Redjuice999, Nobita, Genzoman, Mike Buktus, Travis Charest, entre outros artistas coreanos e japoneses. Já nos quadrinhos gosta muito de Oh!Great, Takeshi Obata, Kentaro Miura, Ishida Sui, Takehiko Inoue, Masami Kurumada, Tetsu Hara, Tsukasa Houjo, Akira Toriyama, “e – principalmente – Yoshihiro Togashi, o cara é um monstro dos quadrinhos”. Giovana diz que o momento mais especial da sua carreira ocorreu quando foi contratada por uma agência japonesa para integrar seu quadro de artistas de games.

Esse foi o passo definitivo que me deu forças para largar meu emprego público (era técnica de engenharia na Caern**) e viver somente da minha arte das coisas que a natureza dá. Brincadeiras à parte, agradeço até hoje ter saído desse emprego, minha qualidade de vida melhorou bastante e hoje minhas condições financeiras são – de longe – melhores que na época, e tudo graças aos quadrinhos e ilustrações.

É bem provável que além das quadrinistas mencionadas aqui tenham surgido outras no estado, mas como sempre é difícil conseguir informações sobre as primeiras mulheres a fazer quadrinhos no Brasil, posso ter passado batido por algum nome. Se você souber de alguém para acrescentar à lista, é só dizer nos comentários. Até o próximo texto sobre as pioneiras do Nordeste!

 

Conheça mais trabalhos do EUDETENIS: Tapastic, Portfólio e Deviantart.

Conheça mais trabalhos da Milena Azevedo: Likestore, Facebook e YouTube.

* Obrigada Henrique Magalhães por me mostrar essa raridade na Gibiteca Henfil.

** Companhia de Água e Esgotos do Rio Grande do Norte.

Um comentário em “Quadrinistas pioneiras do Rio Grande do Norte

Deixe uma resposta para Vitória Lima Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *