Rose O’Neill e o sufrágio feminino

Na França, em 1759, Olympe de Gouges (escritora e militante francesa) publica a Declaração dos Direitos da Mulher. Seu nome verdadeiro era Marie Gouze, assinava Olympe nos panfletos que distribuía nas suas frentes de luta. No primeiro artigo da declaração, ela diz:

Artigo 1º – “A mulher nasce livre e tem os mesmos direitos do homem. As distinções sociais só podem ser baseadas no interesse comum.”

Desencadeado pela Revolução Francesa, as mulheres fizeram diversas denúncias sobre a desigualdade entre homens e mulheres, entre eles o direito da mulher em votar.

No mundo inteiro o direito ao voto aconteceu em diferentes momentos. A Nova Zelândia foi o primeiro país a conseguir o sufrágio feminino, em 1893. Quatro anos depois, foi fundada a União Nacional pelo Sufrágio Feminino por Millicent Fawcett (educadora britânica) e novos movimentos começaram no Reino Unido. Apesar disso o voto foi estabelecido apenas em 1918.

No Brasil, foi em 1928 na cidade de Mossoró (RN) que tivemos a primeira mulher a votar.

tumblr_o33sxpjazu1sajxjyo1_1280

Quadrinho de Aline Lemos

A artista que trago hoje estava nos Estados Unidos, onde o movimento sufragista passou por diversas etapas. O período em que a cartunista atuava foi quando ocorreu a primeira votação para o sufrágio feminino no Senado Norte-americano. Infelizmente, derrotado.

Era uma prática comum usarem os cartoons para narrar os fatos da época. Nos jornais era visto frequentemente. Neste período, muitos cartunistaforam contra o movimento das sufragistas.

Outros, a favor.

Entre eles, a artista Rose O’Neill.

image credit Bonniebrook Historical Society

Crédito: Bonniebrook Historical Society

Sobre Rose

Rose Cecil O’Neill nasceu em 25 de junho de 1874, em Wilkes-Barre, Pensilvânia. Foi uma artista autodidata. Copiava os desenhos dos livros que encontrava na biblioteca de seu pai. Praticava anatomia desenhando seus familiares e se desenhando pelo espelho. Em 1888, quando tinha apenas 13 anos de idade, venceu um concurso de desenho promovido pelo jornal Omaha cujo o título era Temptation Leading to an Abyss (algo como “Tentação Levando a um Abismo”). Os juízes duvidaram de sua autoria e a fizeram refazer a ilustração para provar que era mesmo capaz. Aos 15 anos vendeu seu primeiro desenho para o jornal Truth Magazine e a partir de então se tornou uma conhecida ilustradora. Inicialmente assinava com suas iniciais para que não fosse reconhecida como mulher, já que era uma profissão predominantemente masculina. 726799

Em 1893 foi morar em Nova York, em um convento. Trabalhou arduamente para diversos jornais na época. Um ano depois do nascimento do Yellow Kid (personagem que marca o “início” das tiras em jornais), em 1896, publica sua primeira tira no Truth Magazine. Sendo considerada uma das primeiras mulheres norte-americanas a publicar tiras em jornal. É valido contextualizar aqui que ainda se estabelecia na época o conceito e formato das tiras. Naquele tempo eram acompanhadas de legendas, pois não havia ainda o balão.

tiraaa

1 – Você é o editor da Scathing Blade?
2 – Bem, eu sou o cavalheiro sobre quem você escreveu e…
3 – Eu só pensei em passar aqui e te ensinar…
4 – Nossa, mas eu estava tão assustado por um instante! Eu achei que aquele cara ia cancelar sua assinatura.

Ainda em 1986 passa a publicar na revista Puck (revista de humor que trazia cartoons, charges e sátiras a questão política da época) onde fica por um longo período tendo como marca o uso do bico de pena. Cria por lá cerca de 700 desenhos. Fica conhecida dentro da publicidade e por ser a primeira mulher a participar da equipe da revista (e a primeira a falar de racismo dentro dela).

a7805f743167fcb4af90821a1e2d17b4

Era muito diversa nos estilos de desenho. Porém, foram os cupidos (que chamou de Kewpies) em 1909, que a tornou conhecida. A ideia surgiu após uma sonho de Rose. Eles foram publicados no Ladie’s Home Journal, Woman’s Home Companion, e Good Housekeeping. Vinham com textos/legendas (como eram usados a maioria das ilustrações na época) e se tornaram uma marca registrada, tendo se transformado até mesmo em bonecos de porcelana. Algum dos Kewpies, também vieram acompanhados com o tema do sufrágio feminino.

 60840

Junto com sua irmã, participou do movimento das sufragistas norte-americanas produzindo cartazes, charges e panfletos. Seu ativismo foi claro a partir de 1915, quando 40mil mulheres marcham em favor do direito ao voto em Nova Iorque. Elas vestiam branco e levam cartazes com os nomes dos estados que representam. Nessa época a Pennsylvania, New Jersey, New York e Massachusetts ainda continuam a rejeitar o sufrágio feminino. Rose chegou a representar as artistas pela Associação Nacional pelo sufrágio da mulher. 1208522_574949889218086_1100007736_n

Era uma mulher à frente de seu tempo. No lugar do vestido, usava uma manta longa com uma corda na cintura. Se divorciou duas vezes em uma idade em que o divórcio era considerado uma heresia doméstica, perdendo apenas para o adultério. Ajudou em causas humanitárias como a Cruz Vermelha e a Sociedade Nacional de Tuberculose.

Rose O'Neill e sua irmã, Callista

Rose O’Neill e sua irmã, Callista, em 1915.

Artigos e notícias confirmam o papel ativo que O’Neill havia desempenhado na campanha pela igualdade das mulheres. E muitos acreditam que seu trabalho como artista influenciou no movimento de mulheres sufragistas.

Image of the famous Missouri illustrator Rose O’ Neill and her sister Callista  marching for the women’s right to vote in 1915. Image credit: Bonniebrook Historical Society.

Rose O’ Neill com mulheres prontas para marchar pelo voto em 1915. Crédito: Bonniebrook Historical Society.

Além de ser ilustradora, escritora e poeta, Rose O’Neill também esculpia, criando figuras como o “Embrace of the Trees” e “O Fauness.” Obras consideradas vulgares para época.

Embrace of the Tree by Rose O'Neill

Escultura “Embrace of the Tree”

Seus trabalhos tinham como marca o humor. Sua última tentativa foi em 1940, quando ela criou Ho-Ho, the Little Laughing Buddha. Uma Deusa da sabedoria que tinha a “supremo sabedoria do riso.” Trabalho que não foi muito bem sucedido.

tumblr_mpq8xtmQVe1rgg81io1_500

Depois de sofrer uma série de derrames em 1944, Rose O’Neill morre. Tornou-se conhecida na cidade em que morava e atualmente há em seu nome museus e uma instituição que oferece cursos gratuitos de artes. Mês passado ela estava entre dez finalistas para o Hall de famosos de Missouri.

 256918

 tumblr_mgztv7GFp21rgg81io1_1280

índice

Signs, 1904Capri, 1933 - one of the Sweet Monsters

232428

image credit Bonniebrook Historical Society 2

FONTES: http://www.irocf.org/ | http://roseoneill.org/mainpage.html | Livro Pretty in Ink de Trina Robbins.

Você pode encontrar mais informações sobre Rose no livro Cartooning for Suffrage Hardcover – de Alice Sheppard e Elisabeth Israels Perry.

Apesar de ter colaborado com o movimento necessário para algumas conquistas das mulheres da época, e de existir mulheres negras dentro do movimento sufragista, percebe-se que o feminismo era pautado nas necessidades das mulheres brancas. Para saber mais sobre o assunto recomendo a leitura do texto “E eu não sou mulher?”

ALGUNS QUADRINHOS QUE FALAM/REIVINDICAM DIREITOS DA MULHER

Olympe de Gouges por José-Louis Bocquet e Catel Muller
Suffragette de Mary Talbot, Bryan Talbo e Kate Charlesworth.
Not Funny Ha-Ha: A Handbook for Something Hard – Leah Hayes
Dicas do abortinho por Chiquinha
Mulheres – Retratos de Respeito, Amor-Próprio, Direitos e Dignidade por Carol Rossetti
Aborto – ZiNas
Fight Like a Girls de Kaol Porfírio
Outras meninas de Manu Cunhas

Projeto Beleza Real – Negahamburguer
Lei do Feminicídio no Brasil por LoveLove6
Anayde Beriz por Luyse
Beco do Rosário por Ana Luiza Koehler
Coisa de Mulher por Rvotrelo
Mulheres na Arte por Aline Lemos

Sei que devem haver mais, então podem colocar aqui nos comentários a sua indicação :)

12219419_876832915745695_4020272740704619104_n

Ilustração que fiz ano passado em parceria com o Ministério Público e que resume em que patamar estão os direitos da mulher no Brasil até aqui.

Um comentário em “Rose O’Neill e o sufrágio feminino

  1. Pingback: Mangamono | A primeira quadrinista da história: Rose O’Neill

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *