Seriam mulheres as primeiras quadrinistas da história?

Recentemente tive a oportunidade de visitar a cidade de Bayeux, na região francesa da Normandia. Lá fica o Musée de la Tapisserie de Bayeux, onde fica em exposição a obra de mesmo nome.

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Detalhe de homens chocados com essa afirmação. Reprodução: Bayeux museum

A tapeçaria de Bayeux é um bordado feito à mão de aproximadamente 70 metros de comprimento e meio metro de altura, datada de aproximadamente 1070, no qual foi narrada uma pequena parte da história da conquista normanda da Inglaterra, mais especificamente a batalha de Hastings, em 1066. Grande parte das cenas representadas no tapete narra os acontecimentos que antecederam a batalha em si. A primeira cena representa Eduardo o Confessor, rei da Inglaterra enviando Haroldo à Normandia. Entre desvios de percurso, batalhas externas, juramentos, traições e até a passagem do cometa Halley [mais detalhes neste post], os trechos finais da tapeçaria mostram com impressionante realismo de detalhes a preparação para a batalha: o embarque na Normandia, desembarque em território inglês, um banquete, a preparação dos soldados e cavalaria até culminar no conflito em si, no dia 28 de setembro. A tapeçaria acaba com a cena da coroação de Guilherme como rei de Inglaterra em 25 de dezembro do mesmo ano.

Alguns anos depois da conquista, Odo, bispo de Bayeux e meio-irmão de Guilherme O Conquistador, encomendou o bordado em lã sobre linho para comemorar a vitória na batalha e difundir a glória da família. Muitas vezes considerada peça de propaganda, a obra não deixou de ser muito importante como registro documental de costumes, vestimentas e até arquitetura da época. O modo de disposição dos desenhos é incomum para a época e faz com que a tapeçaria seja também uma peça importante na história da arte.

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E… o que isso tudo tem a ver com quadrinhos?

Tem a ver que a obra é considerado por muitos um dos primeiros quadrinhos da história e está inscrita desde 2007 na Memória do Mundo pela UNESCO. Em seu célebre livro Desvendando os Quadrinhos, o autor e pesquisador Scott McCloud cita a tapeçaria de Bayeux como um dos exemplos históricos que se encaixam em sua definição de quadrinhos: “Imagens pictóricas justapostas em sequência deliberada destinada a transmitir informações e/ou a produzir uma resposta no espectador”.

E, de fato, vendo-a ao vivo, se percebe que, apesar de não ter as cenas separadas por quadros, a narrativa flui como em um gibi moderno. Auxiliados por algumas palavras em latim, os desenhos reproduzem os personagens como se estivessem de fato em ação e não apenas como uma representação simbólica de seus atos. Isso pode ser visto na cena da Batalha de Hastings, na qual os cavalos são bordados em posições de movimento, como se estivessem sido congelados em um frame de um filme. Coisa que estamos pra lá de acostumados a ver nos quadrinhos.

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Detalhe da cavalaria durante a batalha. Fonte: Giraudon/Art Resource, New York

Agora o interessante mesmo é que, apesar de ser uma história de homens e de guerra, com protagonistas homens, encomendada por um homem, a tapeçaria de Bayeux tem grandes chances de ter sido executada por mulheres. Na verdade são várias as teorias sobre como e onde tenha sido confeccionada. Por muitos anos se acreditou-se que tivesse sido feita pela rainha Matilde de Flandres, esposa de Guilherme, e suas damas de companhia, mas hoje essa possibilidade é tida mais como lenda.

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Reprodução de quadro de Alfred Gaillard chamado “A Rainha Matilde bordando a Tapeçaria”, de 1848. Arquivo pessoal.

Há quem diga que foi feita em uma oficina profissional em um dos dois países envolvidos na batalha baseando-se em desenhos atribuídos aos monges da Abadia de Santo Agostinho, em Canterbury, Inglaterra. Por fim, é também possível que o bordado tenha sido feito por religiosas da abadia de Barking (Essex), sob a direção da abadessa Elfgiva.

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Reprodução de gravura publicada em Caen, em 1823. Arquivo pessoal.

Com tanta controvérsia, não serei eu a afirmar que uma das maiores obras medievais, registro histórico valiosíssimo e um dos precursores da nossa tão querida nona arte é obra das mãos de mulheres. Mas que é muito provável, é. Afinal bordado naqueles tempos (e isso ainda não mudou tanto do século XI pra cá) é “coisa de mulher”. E, não sei se sou só eu, mas dá um certo orgulho pensar que essa maravilha de peça que registrou um momento histórico com tamanha riqueza de detalhes – e uma paciência infinita – tenha sido obra de outras mulheres, num passado tão remoto que parece outra dimensão. Mulheres que nunca sonhariam em ter a participação que temos hoje na produção cultural, na autoria e difusão desse produto que é o primo moderno da tapeçaria de Bayeux. Mulheres que nos fazem lembrar, no entanto, porque ainda temos muito espaço a conquistar, depois de séculos de “sombras”.

Espero que nós também sejamos motivo de orgulho pra essas mulheres do passado e ainda mais para as do futuro.

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