Sofia Olsson: imigração e hqs feministas na Suécia

Sofia Olsson – Angoulême, 27 janeiro de 2017.

Conheci Sofia Olsson durante o 44º Festival de Angoulême e conversamos durante quase duas horas sobre os quadrinhos na Suécia. Eu me surpreendi com a sua simpatia e a sua paciência com uma estrangeira que não domina bem o inglês e não fala nada de sueco. Posteriormente, mantivemos contato e pude esclarecer alguns pontos, tanto sobre a produção quanto ao que diz respeito à participação feminina no mercado de quadrinhos sueco, assunto que tem me rendido alguns textos e muitas reflexões nos últimos meses. E é sobre esses temas e a obra de Sofia Olsson que iremos falar nas próximas linhas.

Sofia Olsson nasceu em Sundsvall, Suécia, em 1979. Formou-se em Ciências Políticas e estudou na Serieskolan (Escola de Quadrinhos) de Malmö, instituição que tem revelado toda uma nova e talentosa geração de quadrinistas na Suécia. Sofia também é jornalista e trabalha como repórter para o programa de literatura Babylon e para programa Kulturnytt, da Swedish Radio P1.

Ända hit, publicado em 2007

Seu primeiro trabalho como quadrinista foi o álbum Ända hit (Bater sempre), publicado em 2007, em que fala sobre as dificuldades de ser imigrante na Suécia, a partir do depoimento de cinco mulheres. Sofia explicou que escolheu o tema devido a uma discussão que ocorria na época sobre a integração dos imigrantes na sociedade sueca. Ela, como sueca, não tinha amigos imigrantes e sentiu-se à margem da sociedade multicultural que existe atualmente na Suécia. Daí a necessidade de se aproximar dos imigrantes e de criar uma história em quadrinhos sobre eles.

Hetero i Hägersten (2010)

Em 2010, lançou seu segundo álbum, Hetero i Hägersten (Heterossexual em Hägersten), que teve uma sequência, Det bästa barnet (A melhor criança), em 2013. Nesses dois álbuns, ela trata das dificuldades de um relacionamento a dois. No primeiro álbum, os desafios de começar uma vida a dois, no bairro de Hägersten, em Estocolmo. No segundo álbum, o desejo de ter um filho, o drama de não conseguir engravidar, a busca por auxílio médico, términos e recomeços. Nos dois casos, Sofia utiliza elementos autobiográficos e poético-filosóficos. Seus quadrinhos misturam, também, temas políticos, sempre com uma pitada de humor, uma característica que a própria autora destaca em sua obra. Atualmente, ela trabalha em um novo projeto dentro do mesmo estilo de Hetero i Hägersten mas, segundo ela, mais ambicioso.

Det bästa barnet

Sofia participa de um coletivo de quadrinhos feministas, chamado Dotterbolaget, que estimula quadrinitas suecas a trabalharem juntas. Elas organizam oficinas, exposições e antologias. O Dotterbolaget também atua junto a organizações que fazem trabalhos humanitários. Um de seus últimos trabalhos foi justamente junto a organizações que defendem os direitos de refugiados e imigrantes.

Fragmento de Hetero i Hägersten.

Na última década, houve uma onda de quadrinhos feministas na Suécia, que possibilitaram o aumento da participação das mulheres no mercado que, atualmente, gira em torno de 50%. Segundo Sofia, são quadrinhos bem humorados que tratam de temas políticos e que se tornaram muito populares. Os quadrinhos independentes são os que mais têm se destacado dentro do cenário cultural, um cenário diferente do de outros países, onde quadrinhos comerciais dominam o mercado.

A Suécia ainda está longe de ser um paraíso para as mulheres. Da mesma forma que em outros países, as mulheres também precisam superar muitos obstáculos. Nas palavras dela, a “Suécia pode não ser um país machista, mas ainda é uma sociedade patriarcal.” Ainda existem disparidades entre os salários de homens e mulheres e, nos últimos anos, houve um crescimento dos nacionalistas democratas suecos, cuja visão sobre a cultura e os papéis de gênero é extremamente conservadora.

“Quem ama uma feminista” Ilustração de Sofia Olsson.

No entanto, não seria exagero afirmar que os quadrinhos suecos, atualmente, fazem parte de uma vanguarda europeia em que homens e mulheres vêm transformando a nona arte num elemento cultural e formativo de grande relevância. Isso acontece tanto no traço livre e na originalidade de vários autores e autoras, quanto na própria valorização e construção de um estilo regional, que fazem dos quadrinhos suecos um referencial para jovens artistas de todo o mundo.

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