Tá rindo de quê?

Texto de colaboração de Cintia Lima Crescêncio – Historiadora

Em 1986, na edição 20, o periódico feminista uruguaio La Cacerola publicou um artigo intitulado “Urgente: necessita-se de mulheres dispostas a rir”.  No texto, não assinado, as autoras narravam a dificuldade de compôr uma coluna com tirinhas e charges que fossem capazes de provocar o riso em mulheres. Em meio a tal dilema questionou-se:  O que nos faz rir?

A pergunta não é nova. Os teóricos mais gabaritados já procuraram respondê-la e para isso valeram-se de definições de riso que, com frequência, recaíam sobre a noção de ridículo. Henri Bergson apontava o riso como gesto com significação e alcance social que, ao final, serve como castigo que se estabelece por meio da humilhação. Quentin Skinner afirmava que por meio do riso é possível arruinar a causa do adversário e persuadir a audiência por meio do insulto.

Qual a relação do artigo uruguaio com esses conceitos? A conclusão que as próprias autoras chegam: as mulheres não riem como os homens. Não porque eles sejam geneticamente programados a rir da tragédia alheia, mas porque as experiências vividas pelas mulheres colaboram na construção de outra sensibilidade em termos de humor. No artigo do La Cacerola as autoras pontuam: “queremos rir com ternura e afeto e dirigir a ironia e a acidez para onde ela deve ser dirigida, não para castigar com o ridículo o que nos machuca.” O texto uruguaio, de 30 anos atrás, resume a existência de uma modalidade de humor que “ri” da teoria e subverte os modos de rir a partir do protagonismo das mulheres.

Fonte: CIÇA. Mulherio, Brasil, Junho-Julho de 1981. Edição 2, p. 12.

Fonte: CIÇA. Mulherio, Brasil, Junho-Julho de 1981. Edição 2, p. 12.

Em um campo dominado majoritariamente por homens, seja em termos de humor gráfico, stand up comedy, literatura, teatro e cinema, refletir sobre o humor produzido por mulheres e os dispositivos que acionam o riso delas é o mesmo que balançar velhas e empoeiradas estruturas em que minorias políticas são o alvo principal. Machismo, racismo, lesbo-homo-bi-transfobia e uma série de preconceitos podem ser reproduzidos no humor das mulheres? Certamente. Mas arrisco dizer: se há uma possibilidade de subversão no humor, o terreno mais fértil está nas mãos de todas as mulheres.

Referências:

BERGSON, Henri. O riso: Ensaio sobre o significado do cômico. Rio de Janeiro: Guanabara, 1978.

“Entrevistando a Cotidiano Mujer”. In: La Cacerola, Uruguai, março de 1988, ano 5, n. Especial, p. 9.

SKINNER, Quentin. Hobbes e a teoria clássica do riso. São Leopoldo: Editora da Unisinos, 2002.

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