As dúvidas de Erika

Erika - foto de Lori Matsumoto

Por  Gabriela Belderrain - estudante do curso de Comunicação Social – Midialogia na Unicamp

Para Erika Moen, se apaixonar por um homem foi um grande problema. Afinal, ela tinha construído toda sua identidade social, sexual e política como lésbica. Podemos acompanhar suas dúvidas e questionamentos (e, enfim, resoluções) no seu webcomic autobiográfico DAR! – A Super Girly Top Secret Comic Diary. Ela começou em 2003, enquanto ainda estava na faculdade e num relacionamento instável com sua primeira namorada, e finalizou o projeto em 2009, depois de formada e já casada com Matt Nolan.

Ao longo desse período, acompanhamos a evolução da identidade de Erika, em seus quadrinhos cheios de humor ao se tratar de um assunto tão delicado.

Erika conheceu Matt quando estava fazendo intercâmbio na França e decidiu passar alguns dias em Londres. Matt, que era fã de Erika e acompanhava seu trabalho pela internet, ofereceu-se para hospedá-la, e então o inesperado aconteceu: Erika se apaixonou por um homem, colocando-a numa situação muito confusa. Como ela poderia amar Matt, se ela era lésbica?

Porém, ela resolveu lidar com o assunto em vez de apenas fugir do relacionamento e conseguiu chegar a uma solução, definindo-se como “queer”, que engloba qualquer tipo de sexualidade não-normativa, seja hetero ou homo.

O que antes era um estilo amador, em painéis que eram mais como um diário pessoal da autora, se transformou a ponto de Erika consolidar seu traço e sua habilidade de contar pequenas histórias engraçadas em tiras ou tratar de assuntos mais polêmicos, como a compra de um vibrador em uma série que mais tarde se tornariam posters. Apesar dos temas tratados em seu trabalho ainda serem um tanto pessoais, ela consegue deixar o leitor confortável o suficiente para partilhar algo pessoal nos comentários.

Recentemente Erika finalizou seu projeto em colaboração com Jeff Parker, o webcomic Bucko. A história é sobre  as desventuras de Rich “Bucko” Richardson, que ao ir ao banheiro durante uma entrevista de emprego, encontra um homem assassinado. Com o humor de Parker e a incrível arte de Erika, estes quadrinhos são ótimos para quem gosta de uma história de mistério com toques surreais e divertidos.

Erika já publicou duas antologias de DAR! e um livro em parceria com Lucy Knisley, Drawn to You. Em breve, será lançada uma coleção de quadrinhos eróticos da qual Erika é colaboradora, chamada Smut Peddler Anthology. Também participam Jess Fink , de Chester 5000 XYV, e Spike, de Templar, Arizona.

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Moonlight Flowers

Por Anarkana


Moonlight Flowers (Mangá)
Autora: Tsukumo Mutsumi
Ano de lançamento: 1989

Volume lançado: 1 (Completo)Gênero: Yuri (romance entre mulheres), Drama, Adulto

Sinopse: Sahoko abandona seu emprego e seus sonhos de menina para iniciar sua fase adulta de acordo com a tradição japonesa: casar com um homem respeitável. Neste momento, reencontra Kaoru, sua grande amiga de adolescência, que traz lembranças da peça Romeu e Julieta interpretada por elas e de um beijo dado por Kaoru a sua princesa Saho (Sahoko). O retorno da amizade faz com que Sahoko questione esse futuro imposto por seus pais.

A peça Romeu e Julieta interpretada por duas mulheres poderia ser a base desse yuri clássico: Moonlight Flowers. É possível se afirmar, a princípio, que o amor é universal e, por isso, não importa quem interprete esses papéis feminino e masculino a história tem potencial para reproduzir a original. Assim, uma mulher pode muito bem desempenhar os atributos masculinos como ocorre no teatro japonês Takarazuka Revue (onde os personagens masculinos são interpretados por mulheres: otokoyaku). Isso já seria por si só uma mudança significativa: a mulher pode optar por exercer um comportamento social oposto ao seu sexo. Mas aí é que está a grande questão desse mangá: não se trata de papéis, pois não há aceitação do papel feminino, nem sequer o masculino é interpretado por uma mulher e muito menos o romance segue o padrão de casal heterossexual.

Assim, a grande luta de Sahoko está em romper com um papel feminino regulado pelas tradições japonesas (impostas pelos seus pais) a fim de conquistar sua liberdade e estar com quem ela realmente ama (Kaoru). Também, não se traça um estereótipo da lésbica, pois a questão de se identificar com os atributos masculinos deixou de ser um indicativo de sexualidade. Kaoru, que é independente e forte, está mais para o conceito de mulher moderna, porque ultrapassamos o período em que se atribuía tais características (que eram, na verdade, ensinadas e impostas) exclusivamente aos homens.

Além disso, o amor de Kaoru a torna capaz de desejar a felicidade de Sahoko e respeitar suas decisões, mesmo que isso signifique perdê-la. E o mangá faz bem o paralelo de como outra seria a história se Kaoru pudesse ser um homem:

Essa necessidade de ter de esconder um sentimento para manter a proximidade de Sahoko rompe com um padrão de romance: aquele expressão de amor masculino que se faz por meio da posse da frágil mulher. Kaoru, portanto, precisa encontrar outra forma de manter seu amor próximo e ela o faz por meio da amizade (baseada na igualdade): apoio incondicional à Sahoko para enfrentar o que a entristece e aprisiona, pois se há alguma possibilidade de amor entre elas, apenas se fará com o fortalecimento desta. As duas mulheres ao se descobrirem e se reinventarem a partir de seus conflitos e contradições diante de uma sociedade tão machista como a japonesa (bem retratada no mangá, inclusive ao abordar o tema “estupro corretivo”) criaram uma história de amor única e acredito que essa seja a beleza de Moonlight Flowers.

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