Sim, nós podemos fazer quadrinhos!

O Dia Internacional da Mulher não é um dia de comemoração. É mais um dia pra lembrar a opressão que sofremos por anos por termos nascido MULHERES.

Nesse dia vale lembrar a proposta deste blog, que nada mais é resgatar a história das mulheres que utilizam a nona arte como meio para contar as suas histórias, apresentar seus pontos de vista, protestar e promover transformações sociais. Quem gosta de ler história em quadrinhos e quem gosta de produzir entende o que queremos dizer com isso. Pode ser clichê muitos dizerem que aprenderam a ler por meio dos quadrinhos, mas você já pensou no quanto isso é importante? Milhares de HQ’s foram porta de entrada para a leitura, para o conhecimento. Quem nunca se viu em um dos personagens, quis ser um deles e até mesmo agir que nem eles? Os meninos inventaram capas com a toalha e acharam que iam proteger o mundo. E as meninas? Onde estavam elas? Indefesas e presas em uma armadilha esperando alguém para salvá-las? Isso já era. Nos cansamos disso. Cansamos de esperar enquanto os meninos curtiam toda aventura e ação.

É por isso que lembraremos neste post das mulheres que quiseram  ser protagonistas de suas próprias histórias.

Começando por Zelda Jackson Ormes (1911-1985) conhecida como Jackie Ormes. Uma mulher afro-americana que vivia cercada de artistas e políticos em Chicago. Jackie começou a produzir em 1937 uma série conhecida como “Torchy Brown”. Produziu ao todo quatro histórias: “Torchy Brown in Dixie to Harlem“, “Candy“, “Touchy Brown heartbeats“, e “Patty Jo ‘N’ Ginger“, que virou boneca.  A tira Torchy Brown merece um destaque, pois foi a primeira personagem negra independente em uma época em que  eram retratadas apenas como empregadas domésticas e babás. A personagem Torchy se mostrava corajosa, inteligente e ousada – o que rendeu a Jackie uma investigação do FBI durante a era McCarthy. Os quadrinhos de Jackie foram publicados entre 1937 e 1956 em jornais como o Correio Pittsburgh e Chicago Defender e falavam de temas como a segregação racial, política externa dos EUA, igualdade educacional, bomba atômica, poluição ambiental, entre outras questões tantas vezes vistas no mundo de hoje. Foi Jackie quem retratou, muitas vezes, o que acontecia na época, e que os jornais não tinham coragem de mostrar. A história desta mulher rendeu uma biografia feita pelo historiador Tim Jackson e, por parte da também quadrinista e afro-americana Cheryl Lynn Eaton, a The Ormes Societyuma organização dedicada a apoiar mulheres afro-americanas que criam histórias em quadrinhos e que promovem a diversidade dentro da indústria e entre os leitores.

Para saber mais sobre Jackie Ormes: http://www.jackieormes.com/index.php

Do passado para o presente, lembramos aqui de um feito recente. A quadrinista Renae De Liz concretizou um projeto desejado por muitas de nós. Ela lançou o Womanthology, uma antologia inteiramente feita por quadrinistas mulheres para arrecadar dinheiro para uma instituição (Global Giving Foundation) que ajuda outras instituições de caridade. Mulheres de todas as idades e de diferentes níveis de experiência tiveram oportunidades iguais para ajudar a criar este projeto por meio de seus desenhos. E elas não param! Recentemente conseguiram juntar mais de 20mil dólares para fazer um documentário sobre a Mulher Maravilha intitulado “WONDER WOMEN! THE UNTOLD STORY OF AMERICAN SUPERHEROINES”. Para conhecer o projeto, acesse: http://womanthology.blogspot.com/

Muitas mulheres fazem parte dessa história de mudança nos quadrinhos e que já foram temas aqui no lady’s: Trinna Robbins, Marjorie Henderson, Pagu, Hilde Weber, Edwina Dumm, As irmãs Giussani, Margaret Mitchell, Marla Drake, Dalia Messick e muitas outras…

Nesse dia nos lembramos delas e pedimos: Nós podemos não ler os mesmos quadrinhos, desenhar igual ou ter o mesmo olhar sobre a história… Mas não podemos ser ignoradas. Porque, sim, nós podemos fazer quadrinhos!

- A maioria das fotos foram retiradas deste blog, onde tem o devido crédito e data -

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As tiras de Pagu

Ela foi escritora, jornalista e militante comunista. Mas que poucos sabem é que Pagu também desenhava, não só ilustrações e croquis. Por um curto período de tempo arriscou-se nas tiras.

Foto: Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp

Quem foi Patrícia Galvão (1910-1962)?

Pagu veio de uma família conservadora, mas logo suas atitudes seriam contrárias a esse estilo de vida. Nascida em São Jão da Boa Vista em 9 de junho de 1910, morou em Vila Mariana, bairro classe média de São Paulo, e estudou no Caetano de Campos, na Praça da República, também em São Paulo. Pagu foi para os padrões da época uma mulher diferente. Ela fumava na rua, falava palavrão, usava roupas transparentes e cabelos arrepiados. E mesmo não tendo participado da Semana de Arte Moderna (já que tinha apenas 12 anos) ela se tornou musa dos modernistas, e por influência do casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, se integrou em 1928 ao movimento antropofágico, de cunho modernista.

Pagu, Elsie Lessa, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Eugênia Álvaro Moreyra

Da esquerda para a direita: Pagu, Elsie Lessa, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Eugênia Álvaro Moreyra por volta de 1928

Em 1930 Oswald de Andrade se separau de Tarsila e casau com Pagu. E daí muita coisa aconteceu. Em um artigo publicado no Almanaque da Baixada Santista – 1973, o jornalista Evêncio da Quinta narra como Pagu virou uma militante política:
“Dois anos antes, em 1931, assistindo a um comício do partido na Praça da República, em Santos, vê a Cavalaria cair em cima dos operários e é ela quem ampara o estivador Herculano de Souza, com a cabeça partida. Ele morre em seus braços. Em seguida vai presa. É a primeira mulher brasileira a ser presa por motivos políticos. Este fato a marcou profundamente, e talvez tenha sido o “estalo” de que necessitava para aderir à luta “pesada”.”

Pagu deixando o presídio. Foto: Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp –

Não vou me prolongar na história de sua vida, pois na internet e fora dela há inúmeros textos. Quem quiser conhecer a história dessa mulher não irá se arrepender. Voltando…

Foi logo depois de Pagu se casar com Oswaldo de Andrade que juntos lançam o jornal “O Homem do Povo”. O jornal foi criado pelo casal e dirigido por eles. Ele teve curta duração porque foi proibido por policiais depois de uma briga com estudantes de direito, em apenas oito edições o jornal satirizava a sociedade capitalista e burguesa no Brasil, trazia textos políticos e contou com a participação de Queiroz Lima e do crítico Astrojildo Pereira. Nessas 8 edições Pagu publicou tiras e ilustrou o jornal e publicou sua coluna “Mulher do Povo”.

A história em Quadrinho chamada: Malakabeça, Fanika e Kbelluda, descreve situações de Kbelluda, a sobrinha pobre de Malakabeça e Fanika, um casal que não teve filhos.


Algumas pessoas contam que Pagu copiou o estilo de Tarsila ao desenhar, e realmente lembra um pouco. Mas não deixa de carregar a personalidade de Pagu. O desenho não é proporcional e nem detalhista, vem acompanhado de legenda – características dos quadrinhos antigos. Em 3 quadros Pagu faz críticas aos fatos da época, como nessa tira em que mostra a perseguição policial aos militantes comunistas:

Pagu desenhou para outros jornais e revistas, mas essas são as únicas tiras que se tem conhecimento. Veja aqui suas outras 6 tiras:

Pagu casou-se de novo depois. Muita coisa aconteceu até descobrir que tinha câncer. Depois de uma cirugria sem sucesso, feita em Paris, tenta um suicído que não deu certo. Ela morre no Brasil em 12 de dezembro de 1962. Seus quadrinhos podem ser encontrados no fac-similar do Jornal Homem do Povo, vendido na internet.

Assista aqui um doc. De 15min sobre Pagu.

Curiosidades:

-O apelido Pagu foi dado por Raul Bopp. Ela teria mostrado a Raul alguns poemas e, na mesma ocasião, o poeta sugeriu que ela adotasse um “nome de guerra” literário. Sugeriu Pagu, brincando com as sílabas do nome da escritora, que Bopp equivocadamente acreditava se chamar Patrícia Goulart.
- Hoje existe uma Instituição que leva seu nome e que possui um site para atuar na produção de notícias e conteúdos sobre os direitos das mulheres brasileiras.
- Para saber mais sobre Pagu: http://www.pagu.com.br/blog/home/

Obs.: As fotos são de celular por isso não estão em boa qualidade.

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