The Gaysi Zine – Uma voz visual queer

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Capa do “The Gaysi Zine – Issue 04”. Imagem: http://gaysifamily.com

“The Gaysi Zine – issue 04” me conquistou imediatamente, com sua capa linda e provocadora. Nela, vemos em cores vibrantes uma personagem fortemente maquiada, sentada na privada com uma revista em quadrinhos nas mãos, enquanto nos dirige um olhar desafiador. Sem se embaraçar nesse momento íntimo, ela nos confronta graciosamente. Difícil de desviar o olhar!

Não é todo dia que uma zine viaja da Índia para te provocar em Belo Horizonte. Graças à Carol Rossetti, que colaborou com a publicação e a abrigava em sua estante, pude levar a revista e o desconforto para casa.

Arte de Carol Rossetti publicada em "The Gaysi Zine". Imagem: http://carolrossetti.tanlup.com

Arte de Carol Rossetti publicada em “The Gaysi Zine”. Imagem: http://carolrossetti.tanlup.com

Com suas 122 páginas coloridas, “The Gaysi Zine” lembra mais um livro ou coletânea. Ele se define como uma “antologia gráfica queer e conta com mais de 30 artistas em uma edição de alta qualidade. Basta uma folheada para notar as artes caprichadas e diversas das ilustrações, tirinhas e páginas de quadrinhos. A leitura não decepciona, oferecendo abordagens narrativas e gráficas interessantes, bem como temas variados que vão desde o cotidiano contemporâneo até o mítico atemporal.

Talvez a maturidade da publicação reflita a experiência de seus organizadores. Além de estar no seu quarto número, “The Gaysi Zine” foi originado a partir do portal Gaysi, que se define como “um espaço online seguro para desi queer.” Opa, a gente ajuda nos termos:

  • Queer: termo guarda-chuva que se refere a pessoas de gênero e sexualidade que não são heterossexuais ou não se identificam com o gênero que lhes foi determinado ao nascimento.
  • Desi: termo abrangente para culturas da Índia, sul da Ásia e sua diáspora, que inclui países como Bangladesh, Índia, Maldivas, Paquistão e Sri Lanka.

O portal possui fóruns de discussão e veicula notícias e conteúdo cultural, propondo-se como um lugar para participar de uma comunidade – uma família – que abrace a diversidade. Seu sonho para “The Gaysi Zine” é “ter uma voz visual forte no espaço queer”.

Mas pra quê, mesmo? Com certeza não é preciso ser ou se interessar por questões LGBT* para se apaixonar por uma zine de qualidade como o “Gaysi”. Mas, então, pra quê o foco no tema, pra quê reivindicar a bandeira? Imagens e narrativas queer são mesmo diferentes das outras?

Os organizadores da zine se perguntaram, no prefácio, sobre o que significaria uma antologia como essa. “Nós não tínhamos ideia sobre que diretrizes dar aos artistas e contadores de histórias. Nos perguntamos até mesmo se ser queer (queerness) faz com que as pessoas vejam o mundo diferente, ou se o mundo vê o que é queer de forma diferente. Ser queer produz realidades diferentes? Ainda não temos a resposta para isso.”

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O portal Gaysi organizou também um painel sobre Artes Gráficas na Índia Queer, compreendendo-as como “um espaço para textos performativos.” Imagem: http://gaysifamily.com

Se eu tivesse que dar uma resposta à pergunta do Gaysi zine, eu diria que sim, ser queer produz realidades diferentes. Nosso gênero e sexualidade são parte do que somos e, portanto, daquilo que criamos e das realidades que produzimos. Isso também funciona para nossa nacionalidade, nossas inclinações políticas, nossos gostos, nossos afetos… Nenhuma das nossas características determinam o que criamos, somadas elas dão um ponto a partir de onde falamos. Em certos momentos, podemos reivindicar essa parte de nós para nos manifestarmos, principalmente quando ela é habitualmente silenciada. Ser uma voz queer forte é uma luta pela sobrevivência em contextos de profunda exclusão e violência contra a população LGBT* como a Índia e, por falar nisso, o Brasil.

Enquanto nos olhávamos, pensei que a personagem da capa era a imagem perfeita dessa voz. Diante da vontade conservadora de relegar os direitos e os indivíduos LGBT* ao âmbito privado, íntimo, fora das ruas e das mídias, ela sustenta seu olhar descarado. É uma voz que não vai ficar escondida no banheiro da política.

Essa é, para mim, uma interseção muito feliz e nada ingênua entre arte e política. Lendo as páginas da zine, queremos mais e mais nos envolver em suas narrativas e imagens, encantadoras também por serem queer. Tratamos certas questões como se fossem estéticas e outras não, separando a forma do conteúdo – “quadrinhos que abordam política não são criativos ou interessantes”, ou “tal obra está acima de qualquer posicionamento”. Será mesmo assim? “The Gaysi Zine” é a prova de que as imagens não são neutras, e que reivindicar uma postura política através delas também pode ser uma postura extremamente produtiva e desafiadora. Capaz até mesmo de criar vozes fortes.

Leia um preview do fanzine clicando aqui! 

Leia uma HQ de Amruta Patil, autora indiana publicada também no “Gaysi”. Resenha e tradução feita por Laura Athayde.

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