Tove Jansson: A liberdade é a melhor coisa

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Por Stephanie Sauer

A lenda dos Moomins conta que, ao escutar seu tio Einar descrever o que acontecia às criancinhas que se esgueiravam durante a noite para ir até a despensa e comer toda a geleia e o patê – um tipo de espírito doméstico chamado Moomintroll esfregava o focinho contra as pernas da criança e as congelava no pulo para acusar a transgressão –, a jovem Tove Jansson fez um desenho em uma parede externa de casa para mostrar a seu irmão com o que se parecia esse Moomintroll.

O resultado desse desenho sobrevive na madeira até hoje e é creditado como a primeira aparição dos Moomins neste mundo.

Mas vamos ponderar sobre essa história com mais cautela. O tio Einar, da linhagem sueca da família materna de Tove, contou à pequena Tove Jansson sobre os Moomintrolls, descrevendo-os como espíritos domésticos que apanhavam ladrõezinhos de comida no ato. Tio Einar era inventivo, mas ele também estava vivo durante uma das maiores épocas de retomada do folclore escandinavo, incentivado pelos esforços dos Irmãos Grimm na Alemanha. A guerra entra a Rússia e a Finlândia, na qual o próprio pai de Tove lutou para assegurar a independência da Finlândia, também ajudou a solidificar o sentimento nacionalista e alimentou o interesse pela cultura nacional. No século 19, estudiosos haviam começado a colecionar e preservar contos folclóricos e lendas de toda sorte e, em 1849, Gunnar Olof Hyltén-Cavallius e George Stephens publicaram o que seria conhecido como a “primeira coletânea importante de contos folclóricos suecos ” – Svenska Folk-Sagor och Äfventyr (os Contos folclóricos e de fantasia suecos). Em 1873, o Nordic Museum foi criado e o estudo do folclore da região se tornou sistematizado. O tio Einar pode ter inventado a ideia dos Moomintrolls congeladores de ladrões, mas ele podia estar facilmente descrevendo personagens do folclore sueco chamados de Tomtars, espíritos domésticos vestidos de cinza que se escondiam em cantos escuros e agiam, conforme descrito pelo autor de contos folclóricos Lone Thygesen Blecher, como uma espécie de “consciência popular”. Qualquer que fosse o caso, a história assustava a jovem Tove.

Em seu diário de 1930, ela confessa: “Eu deito na minha cama esvaziando uma sucessão infinita de garrafas de água mineral e balbuciando sobre Moomintrolls com olhos de uvas-passas. No ano seguinte, ela se descreve durante um período particularmente difícil como “uma presa para resfriados, anfitriões zangados e Moomintrolls”. São criaturas terríveis quando a habitam pela primeira vez, e ela os rascunha com uma cor preta sólida e traços pontiagudos, ao invés das bordas macias e arredondadas que depois os tornaram famosos. Os Trolls, lembrem-se, eram conhecidos por viver em montanhas e raptar humanos incautos. Eles eram culpados por muitos conflitos nórdicos. Não é de surpreender, então, que esses Moomintrolls ressurjam mais tarde na vida de Tove enquanto ela escrevia durante mais uma guerra. Contudo, é curiosa a transformação dos Trolls de criaturas assustadoras em adoráveis, à sombra de bombas e de um futuro incerto.

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Mas essa possível raiz em lendas antigas diminui o brilhantismo de Tove como criadora? Não. Na verdade, eu argumentaria, acaba aprofundando o seu senso artístico. Uma artista não tem seu trabalho diminuído por ter uma obra enraizada em seu próprio tempo, tampouco esse fato a torna menos atemporal. Eu desconfio de palavras como atemporal e gênio, pois elas carregam a problemática tradição de gênero contra a qual artistas como Tove Jansson lutaram. Gosto de enxergar tais artistas como os seres culturalmente ricos que eles foram, conectados completamente com o mundo a seu redor; quero vê-los sendo respeitados por isso, e não por um comportamento romanticamente patológico do tipo que já foi usado historicamente para justificar misoginia, pedofilia e outras formas de brutalidade nas tradições eurocêntricas da arte. O trabalho de Tove, e não apenas a sua biografia, é repleto de conexões: a mágica família Moomin, seus próprios afetos e laços familiares, o amor pela humanidade frente à guerra, amizades entre gerações (O livro do verão) e a complexa relação entre autor e leitor (A traidora honrada). Tove manteve bravamente sua conexão com os outros e com a sua arte e, por esse motivo, era vista como pouco mais do que uma “autora de livros infantis”, título dado a muitas mulheres de seu tempo que encontravam na literatura infantil uma das poucas indústrias que aceitavam publicar os seus trabalhos. (De maneira reveladora, apenas quando os homens foram lutar na 2ª Guerra Mundial é que Tove e suas contemporâneas femininas encontraram galerias que aceitassem a sua arte).

Então, Tove tomou o espaço que pôde encontrar: expôs nessas galerias e publicou as suas histórias sobre os Moomins; inovava com palavras e imagens em suas tiras, pintava murais sob encomenda sempre que conseguia emplacar algum. Nascida em uma família de artistas trabalhadores, Tove acompanhava de perto as forças que impediam sua mãe de viver uma vida nas belas-artes e, em vez disso, ficava em um canto do apartamento desenhando em troca de um salário enquanto o seu pai continuava conhecido como “o escultor”. Tove não queria nada disso; ela evitou conscientemente as convenções de seu tempo e cavou seu próprio caminho dentro do mundo das belas-artes. Ou, ao menos, conseguiu chegar a isso eventualmente.

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Depois de estudar arte em Estocolmo, ela se tornou uma das duas únicas alunas mulheres da Finnish Society of Art, em Helsinque, e em seguida a única aluna mulher, até se mudar para estudar em Paris. O ensino que encontrou por lá era muito rígido, e os instrutores, muito clássicos. Ela então contratou um tutor independente e dedicou todo seu tempo a pintar. Eventualmente retornou a Helsinque, alugou um apartamento e se juntou a organizações que promoviam artistas. Para conseguir pagar o aluguel, se viu ilustrando capas para o Garm, um jornal satírico político publicado em sueco, para o qual sua mãe também fizera ilustrações. Foi nessas capas que apareceu o primeiro Moomin como conhecemos, com o nome de “snork”.

Tove desenhou para o Garm durante a Segunda Guerra Russo-Finlandesa (1941-1944) e sua resistência a uma vida convencional inflou-se. Em carta à sua amiga Eva Konikoff, em 1941, quando tinha apenas 27 anos, Tove escreveu:

Todas as razões pelas quais eu não quero me casar vieram à tona. Um homem após outro, e Pappa, Faffan, vieram antes. Toda a solidariedade masculina e o pedestal protecionista de privilégios, suas fraquezas, invioláveis e cercadas por seus slogans, sua inconsistência e a charmosa negligência dos sentimentos alheios proclamadas sem nenhum traço de nuance enquanto batem em um grande tambor de manhã à noite na segurança de suas redes e conexões masculinas. Eu não consigo lidar com isso, não tenho tempo para me casar com nenhum deles! Não sou boa em admirar e confortar. Claro que sinto pena por eles e claro que gosto deles, mas não tenho nenhuma intenção de dedicar minha vida para uma performance que já assisti. Eu vejo como Faffan [pai], o mais indefeso e instintivo dos homens, tiraniza sobre todos nós, e como Ham [mãe] está infeliz porque sempre disse sim, amaciou os seus problemas, cedeu e sacrificou a sua vida, recebendo nada em troca a não ser crianças que a guerra pode matar ou destruir com negatividade. Uma guerra de homens! Eu consigo ver o que aconteceria com o meu trabalho se eu me casasse. Não tem nenhuma utilidade; eu tenho todos esses instintos femininos de dar conforto, admirar, me submeter e me sacrificar. Eu seria ou uma pintora ruim, ou uma esposa ruim. E me recuso a dar à luz crianças que podem ser mortas em uma futura guerra… Será que não conseguimos ficar juntos sem fazer exigências ao trabalho, à vida e às ideias de cada um, e continuarmos a ser seres livres sem nenhum dos lados ter que ceder?”

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Tove tinha sido marcada pela vida de seus pais, pela guerra, pelas expectativas de sua cultura, pelas suas limitações. Ela exigia liberdade o suficiente dessas amarras, tanto quanto necessário para se tornar uma artista forte, sem renegar sua própria humanidade.

Mesmo após os Moomins terem feito dela uma celebridade, Tove continuou a pintar. Ela continuou a se esforçar como artista, não se contentando em ficar confortável com a sua fama ou deixar que o seu trabalho se estagnasse. Ela experimentava na tela, continuava brincalhona em seus cadernos, começou a escrever romances, depois memórias e contos. E terminou a série Moomin quando foi necessário, apesar dos protestos de seus fãs mais fiéis. Tove escutava o coração de seu próprio trabalho. Ela seguia a tinta de sua caneta e não forçava um padrão.

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Ela nunca teve filhos, mas se tornou famosa como alguém que escrevia para crianças. Ficou conhecida como a avó dos quadrinhos finlandeses, mãe de todos os Moomins e autora de livros infantis. Mas Tove Jansson desejava ser conhecida primeiramente como uma pintora de belas-artes e uma escritora de ficção para adultos. Foi em 1948 que Moomin conseguiu reconhecimento internacional com seu terceiro livro, Finn Family Moomintroll, mas por anos ela já vinha expondo, escrevendo, trocando telas por combustível para se aquecer durante o inverno. Então ela tratava suas histórias e tiras sobre os Moomins como obras literárias repletas de nuances, e não como as parábolas moralistas que eram comuns em boa parte da literatura voltada para crianças. Dentro do núcleo familiar aparentemente convencional dos Moomins, Jansson elevou o espírito brincalhão infantil – que alguns poderiam chamar de tolice – através de um humor cortante e subversivo. Mesmo assim, existe uma compaixão que é palpável. Quando os Moomins interagem com outros personagens, como a sra. Fillijonk, devoradora de revistas para donas de casa, e a criada nervosa que ela recomenda, vemos convenções sociais jogadas em um profundo contraste, dando a ver seu caráter ridículo. Somos forçados a nos perguntar: O que há de errado na forma com que a Mamãe Moomin cria um jogo para o dia de limpeza? O que, de fato, está errado em lavar os seus pratos na chuva e construir a sua casa ao redor de uma árvore, ao invés de colocá-la abaixo? O que é uma casa, aliás? E por nos perguntar essas questões, postas da forma leve como personificada pela Mamãe Moomin, somos levados a questionar outros aspectos da nossa vida como autômatos sociais. No Vale dos Moomins, Tove Jansson faz com que a vida seja muito mais leve do que ela é. Ela transforma a mágica infantil no personagem mais subversivo de toda a narrativa.

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Assim, essa reimaginação da forma como vivemos através do Moomins, que passaram de fantasmas assustadores com traços pontiagudos a criaturas domésticas arredondadas e suaves, não é nenhum acidente. Nas sombras da guerra em que as histórias dos Moomins cresceram, Tove, como conta sua biógrafa, “acreditava que os dias terríveis da guerra haviam reduzido o valor da humanidade. Ela não via sentido na guerra como parte natural da história”.

Na primavera de 1944, Tove escreveu:

Algum dia as pessoas vão dizer que vivemos tempos interessantes, uma grande época. Mas acredito que os grandes eventos ao nosso redor apenas nos diminuíram. As pessoas não conseguem ser magníficas em uma guerra duradoura. Elas se tornam mais e mais diminuídas e enxergam cada vez menos, se apegando à fraseologia do nacionalismo, aos slogans, aos velhos preconceitos e princípios, e a si próprias. Ou elas se escondem em alguma coisa.”


“A liberdade é a melhor coisa”, primeira frase da canção de liberdade de Thomas Bishop, foram as palavras que Tove escreveu na área externa da casa, próximo ao desenho original do Moomintroll. Liberdade da “sabedoria” convencional, da pilhagem humana, da guerra e da perigosa linguagem que ela cria, tudo isso está no coração da família Moomin. Os Moomins oferecem a todos nós – tanto para os grandes quanto para os pequenos humanos – uma alternativa para a tolice real deste mundo. E agora é hora, mais uma vez, dos Moomins nos lembrarem de questionar.

Stephanie Sauer
A Bolha Editora
(https://www.abolha.com/a-bolha-em-2016)


Stephanie Sauer é autora de The Accidental Archives of the Royal Chicano Air Force(University of Texas Press, a ser lançado em 2016), editora fundadora da Copilot Press e cofundadora d’A Bolha Editora.
Seus trabalhos lhe renderam o prêmio
 So To Speak na categoria livro híbrido, bolsas da Corporation of Yaddo, do The Kimmel Harding Nelson Center for the Arts, do Woodstock Byrdcliffe Guild, e da School of the Art Institute of Chicago, além de serem exibidos no The Center for Book Arts em Nova York, no De Young Museum em São Francisco, na Biblioteca Nacional de Bagdá, no Chicago Cultural Center e na ArtRio.
Ela é professora visitante do San Francisco Art Institute.

Traduzido do inglês por Cassius Augusto (A Bolha Editora)

*Referências: 

Blecher, Lone Thygesen e Blecher, George. Swedish Folktales and Legends. Nova York: Pantheon Books, 1993. | Westin, Boel. Tove Jansson: Life, Art, Words. Londres: Sort of Books, 2014.

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