Tricô, fofocas e costumes – um chá com Bordados, de Marjane Satrapi

Por Luiza de Sá – Jornalista

Estava na fila para o cinema quando decidi entrar na livraria do Belas Artes, em Belo Horizonte, e comprar o Bordados, de Marjane Satrapi. Bastou assistir uma vez a Persépolis (ainda não comprei o quadrinho, grana curta, então um de cada vez) para me empolgar e me tornar praticamente uma militante na propagação dessa animação para os mais próximos e mais queridos.

Levaria o livro de qualquer forma, mas parei um pouco para ler-lhe as orelhas e folhear rapidamente. Logo de cara percebe-se a leveza do texto, uma série de contação de casos é a linha que constrói a narrativa. No bom português, fofoca mesmo.  Mas o que há de leve no fato de familiares e amigas se reunirem para tomar chá e conversar fiado, há de pesado no que diz respeito aos costumes, hábitos e conservadorismo iraniano.

Eu que não sou lá muito atenta para costumes daquela região, fui saber pela contracapa que “bordado”, além de ser o equivalente do nosso tricô, também significa “cirurgia de reconstituição de hímem”, muito comum pelos cantos daquela terra conservadora e extremamente machista.

Quem viu ou leu Persépolis, sabe que a família Satrapi tem uma predileção pela resistência, contestação e em momentos agudos, assume o lado revolucionário e combativo.  Então é de se entender que o posicionamento das moças daquela família seja tão vanguardista em relação os costumes e tradições. E o jeito um tanto quanto escrachado de dizer certas coisas reafirma o tom e a proposta de Bordados. (Vale um salve pro Paulo Werneck pela tradução, afinal, ele é o cara que faz a gente se sentir em casa nessa história).

Pois bem. Penso que pelo menos 50% das pessoas que se aventurarem à leitura extremamente prazerosa dessa história sentir-se-ão (Ui!) como eu me senti: parte integrante dela. Parece que elas só esqueceram de trazer a minha xícara, pois a minha poltrona estava na sala de Satrapi o tempo inteiro. Sabe assim?

Não serei spoiler de “Broderies”, que foi publicado aqui pela Quadrinhos na Cia, da editora Schwarcz Ltda. Mas adianto que tem de um tudo nesse tricô: menina de 13 anos que casa com general de 69; fuga na noite de núpcias; virgindade; gargalhadas; chororô, samovar e seus chás e o clássico “vocês não contem pra ninguém, hein?!” Além do traço, das sombras e da disposição do texto, que são uma belezinha à parte.

No frigir dos ovos, é uma leitura agradável que coloca a gente no centro de questões do universo feminino que merecem serem discutidas e aprofundadas.

Certamente as moças especializadas daqui poderão fazer uma análise profunda, uma contextualização histórica e quiçá uma tese sobre o trabalho de Marjane Satrapi. Ao que me cabe nesse latifúndio é apenas isso, impressões pontuais de uma experiência super legal de uma banda desenhada de Marjane Satrapi.

5 comentários em “Tricô, fofocas e costumes – um chá com Bordados, de Marjane Satrapi

  1. Ô Luiza,
    eu certa vez fiz um trabalho sobre raça, feminismo e “Persépolis”. Conhecia a obra só de ouvir falar, nunca tinha lido ou visto. Como bom nerd fã-de-HQ, comprei a graphic novel pra ler antes de ver a animação.
    E digo, numa boa, é o único caso que eu vi até hoje onde a adaptação (a animação) é muito superior ao material original! Nenhum dos dois é ruim, pra mim a HQ carece de dinamismo – narrativo e gráfico, coisa que a animação supre maravilhosamente bem. Sem dar spoilers, tem uma passagem no quadrinho que se deu de forma quase inócua, sem graça, até meio casual e que na animação ficou tão emocionante…
    Quanto a “Bordados”, até por essas limitações já sentidas em “Persépolis”, não me chamou atenção. Mas, dados os seus elogios, quem sabe um dia, uma hora eu sento pra um chá bem vouyerista, bem intruso? Bwahahahaha, vai saber…

    • Ei Lucas!

      Então, a princípio a impressão que se tem de Persépolis pode ser esta, principalmente quando você está acostumado a quadrinhos de ação.
      Porém a meu ver Persépolis cumpre uma função que vai muito além do entretenimento. É informativo,coloca a mulher no centro da história e passa um ponto de vista que não é passado. Questiona, critica, as vezes veladamente e outras escrachadas.
      Tem sim essas limitações que você citou, uma vez que Maus do Art Spiegelman cumpre um papel semelhante sem com muito mais dinamismo e um roteiro que e prende, porém não acho de forma nenhuma que o valor da obra se perde, nem o interesse pela leitura e releitura.

      E além do mais esta sensação que o quadrinho nos passa é um reflexo do interesse da própria personagem. Ela visivelmente é angustiada, quase depressiva, e nota-se que ela não sente que pertence a lugar nenhum, e daí vem um certo desinteresse pela vida. Acho que ela passa isso muito bem pra nós…

  2. Eu adorei “Persepolis”,não conheço bordados,porém uma historia fascinante como a de Marjane nós sempre encontramos um tempo para sentar e degustar.Marjane Satrapi foi a melhor autora que eu li nos últimos anos.Só lamento o fato de boas historias como essas passarem desapercebidas pelo grande público.

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