Um papo sobre HQs chilenas e feminismo

Em menos de um mês, o Encontro Lady’s Comics na Quanta vai acontecer em São Paulo. Em um dos bate-papos, teremos a honra de receber Victoria Rubio, autora chilena do quadrinho Lesbilais, e a brasileira Beliza Buzollo, da HQ Na Ponta da Língua, para conversar sobre a produção de quadrinhos com o tema da homoafetividade.

Victoria vem da cena dos quadrinhos underground e feminista de Santiago. Usa do humor por meio dos quadrinhos e dos stand-up que faz como arma fundamental contra o patriarcado. Junto com outras autoras, com o COGEFE (Cómics, género y feminismo), buscam visibilidade na cena dos quadrinhos chilenos.

Chega mais que o papo é bom!

Victoria Rubio

Samanta Coan: Como começou a tua relação com os quadrinhos? Foi na infância?
Victoria Rubio: Sim, desde que me lembro eu gostava das histórias em quadrinhos. Além disso, sempre tiveram HQs espalhadas pela casa, especialmente Mafaldas porque minha mãe gostava muito. Isso fez com que todos e todas de seus filhos e filhas tivessem uma relação com os quadrinhos, seja tentando desenhar (como eu), seja lendo. Sempre quis fazer quadrinhos, era meu sonho de infância. Assim, sempre desenhei personagens ou quadrinhos muito ruins. Creio que nunca melhorei nisso, claro, já que não me sinto uma boa desenhista, só me sinto uma boa quadrinista. Depois, quando eu entrei na adolescência, conheci o mangá e comecei a desenhar assim. É um estilo que “peguei”, acredito. Agora eu tento fazer com que meus desenhos sejam atrativos visualmente, mas ainda me concentro muito mais na narrativa. Sinto que bons quadrinhos não têm o porque de estar bem desenhado. Para mim, um grande quadrinho é o que tem uma história interessante, um roteiro sólido. Fico entediada com facilidade de quadrinhos bem desenhados que contam as mesmas histórias da “trajetória do herói” (um menino magro e sem talento — treinado por um ser mitológico — fica forte — mata a um familiar — consegue a menina), além disso ainda são histórias misóginas e machistas. Agora me concentro mais em mostrar mulheres fortes, feministas, lésbicas, independentes, já que é o estereótipo de mulher que quero ser e quero que existam.

Quando, como e porque nasceu Lesbilais?
Lesbilais nasceu como um projeto de visibilidade lésbica. Quando fiz Lesbilais queria mostrar uma realidade lésbica que não se mostrava nem na televisão e nem uma mídia. Por esses anos estava na moda o programa chamado The L World, que era uma série estadunidense muito ruim, mas era a primeira série lésbica. Eu me dei conta que os personagens eram muito hegemônicos e não representavam a realidade das lésbicas chilenas (e acredito que tão pouco das latino-americanas), assim quis fazer algo mais “representativo”. Também nessa época tinha vivido uma pausa importante na luta feminista, assim quis fazer um projeto por minha conta. Isto foi por volta de 2007, quando ainda estava na moda MSN, na verdade. Recordo que nesse tempo, em meu país, estava muito na moda uma tribo urbana chamada “pelolais”. Eles se chamavam assim devido o cabelo comprido e era uma tribo urbana “vazia” em temas de representatividade, já que eram garotas da classe alta, cabelo longo e loira, ricas e conservadoras, que viviam em bairros com alto poder econômico, filhas de donos de empresa e que acreditavam que eram virgens sim só por ter relações anais. Obviamente que com elas eu não tinha nada, mas nada em comum, apenas o “cabelo comprido”, porque eu vivo na periferia, sou muito pobre e sou muito feminista lésbica, então, para me zombar, eu coloquei no MSN como nickname “Lesbilais”, como uma ironia. A partir daí que me veio a ideia de “fazer algo” com este nome. Como sempre fui uma nerd de quadrinhos, sempre quis fazer uma, assim me propus, com recursos super precários nesse tempo, sem Facebook para difundir e com conhecimentos mínimos de web, fazer um webcomic lésbico. A primeira tira lancei em 2009, dia 28 de agosto, e mandei e-mails para as amigas e conhecidas divulgando a página. Depois, graças as redes sociais, consegui difundir um pouco mais meu trabalho.

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Como a produção de quadrinhos e fazer stand-up podem ajudar nas questões da sociedade com humor?
Para mim, o humor é uma arma. E o mal é que é uma arma que o patriarcado tem ocupado durante anos para nos convencer de que o humilhar, matar e odiar as mulheres é o correto. Naturaliza ideias, condutas e cria paradigmas. Só porque as pessoas pensam “é só uma piada, para que exagerar tanto?”. Assim é como uma ideia que se instaura no inconsciente. É a mesma lógica com a cantada: olhar de cima pra baixo, dizer que cantada não afeta em nada. Mas, o patriarcado soube trabalhar nos micromachismos, fez com que o humor e a cantada fossem asseguradas.

Quando descobri o feminismo, e mais adiante o feminismo lésbico, eu me dei conta que deveria fazer algo a respeito. Ao ocupar o humor desde o feminismo, estou usando a armas deles contra eles mesmos, instaurando e dando para conhecer uma realidade que os incomoda. O patriarcado se assusta quando uma mulher utiliza suas estratégias, assim é boicotada até a morte. Ao menos, como esse processo já o vivi ao fazer quadrinhos (ao princípio, a pouca visibilidade era pior do que agora), estou acostumada com o boicote do sistema.

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Quando Supnem veio ao Encontro Lady’s Comics do ano passado, falou um pouco sobre a produção underground no Chile. O que pensas sobre a produção das mulheres chilenas? Tem pouca produção ou é algo que está mudando?
Tem produção, mas o meio chileno é bastante misógino e além disso classista e oportunista. Existem lugares onde perfeitamente poderiam dar visibilidade às obras feitas por mulheres, mas não o fazem. Já nós, faz um tempo que nos aborrecemos desse mundinho, por isso começamos a organizar debates, oficinas e encontros só para mulheres. Temos ocupado o separatismo que eles já tanto usaram por anos, juntando-se em seus clubes do bolinha, a nosso favor. Agora tudo se concentra na produção feita por mulheres.

Como foi o primeiro Encuentro de Autoeditoras de Cómics (Comiqueras)?
Foi muito lindo, igual como te comentei, é difícil mover um encontro, além do mais, autogerido, que fomente os quadrinhos feito por mulheres, mas se tenta.

Autoras no primeiro Comiqueras

Vi que junto com Supnem fizeram “Cómic, Género y Feminismo” no X Encuentro Nacional de Mujeres Feministas, qual era a proposta de fazer isso neste espaço? Tem outros projetos como este?
Pessoalmente, eu gosto de levar o mundo dos quadrinhos à espaços onde ainda é visto com outra perspectiva. Além disso, nossas histórias em quadrinhos são feministas, são feitas por mulheres e tem uma conotação política importante, já que damos uma mensagem em formato muito mais ameno e que chega a um público mais massivo, tirando o feminismo das quatro paredes e da academia, que termina sendo elitista e restritiva. Com Supnem e Devilkathy (outra companheira quadrinista), formamos “COGEFE” (Cómics, género y feminismo), como uma trincheira de luta feminista de HQ. Nosso enfoque é fomentar totalmente o quadrinho feito por mulheres.

Sobre os próximos projetos com COFEGE, são a realização do segundo “Comiqueras”, que será o primeiro de novembro.

Na história dos quadrinhos chilenos há mulheres que você mais destaca?
Sim, sempre tem e sempre teve, só que a história as ocultou. De fato, aprendi recentemente que nos anos 60, Lidia Jeria trabalhou nas histórias de Zorro. Já mais adiante, nos anos 80, não posso não citar a Maliki (Marcela Trujillo) que tem sido um exponente importante dento do meio nacional como quadrinista. Melina Rapimán é uma forte exponente de HQs do trabalho coletivo mais do que tudo, fazendo uma revista chama Tribuna Femenina Comix, que convocava trabalhos de diferentes mulheres relacionados com um tema específico. Seguindo com esta lista de mulheres que ainda fazem quadrinhos no Chile, posso nomear a Oficinismo, Bernardita Ojeda, Bicolor e a Natichuleta.

Desenho de Lidia Jeria

 

Marcela Trujillo — Maliki

Notícia sobre a publicação da nova edição da revista Tribuna Femenina Comix vol. 2

Deixei para o final minhas companheiras feministas, já que tenho um grande apreço por meio do trabalho que fazem desde um lugar não privilegiado e são as quadrinistas que quero que sigam fazendo em Chile; a mesma Supnem que foi o ano passado ao Lady’s Comics e a Devilkathy, que faz muitos anos que faz HQs e falta um reconhecimento maior sobre seu trabalho como quadrinista feminista. Nesta lista de mulheres feministas que estão fazendo comics, tampouco posso deixar de fora a Nikolo, Desobediencia Visual y Flor de Loto.

Supnem

Obviamente que deixei passar algumas. Mas eu gosto de citar nomes de todas que conheci durante meu processo como autora, já que em certa medida tem sido uma influencia (seja ruim ou boa) para seguir em meu trabalho e construção como quadrinista.

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Não perca a oportunidade de participar da conversa que vai rolar no próximo Encontro que acontece nos dias 6 e 7 de maio!

Como se inscrever?
Telefone: (11) 5083–8425
Endereço: Rua Dr. José de Queiros Aranha, 246 — próximo ao metrô Ana Rosa

Programação: http://ladyscomics.com.br/quanta/
Confirme sua presença: https://bitly.com/2nuQw13

Bora? ;)

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