Lovelove6 fala sobre mulheres e quadrinhos

Acompanho a Revista SAMBA há um tempinho. Um certo dia, entre um serviço e outro, vejo uma página de quadrinho no Facebook. Tinha cores fortes e um traço interessante, mas foi o nome que me chamou a atenção: Garota Siririca. Logo pensei “Que massa! Tem que ser uma garota a autora!”. Custei para descobri que se tratava de Gabriela, conhecida como Lovalove6. Foi assim que conheci o trabalho dela. Entrei em contato, pedi uma entrevista e aqui estamos! ;)

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  • Quando começou a fazer quadrinhos? Conte-nos um pouco sobre sua história na área.

Comecei a fazer quadrinhos no começo de 2013, quando publiquei uma página na zine Janeiro do projeto MÊS (Augusto Botelho e Daniel Lopes – DF). Depois publiquei uma zine chamada A Ética do Tesão na Pós-Modernidade. Entrei num projeto de webcomics entre amigos, chamado Batata Frita Murcha, participei de zines de amigxs, passei a publicar o Garota Siririca no blog da revista SAMBA… Fui em vários eventos, a Feira Plana, Ugra Zine Fest, FIQ e procurei conhecer quadrinistas com quem me identifiquei. Fiz um monte de amigas e amigos ao longo desse ano.

  • Quais são suas referências?

Atualmente tenho dado muito mais valor nas amigas e amigos quadrinistas com quem faço trocas e convivo quase diariamente, mesmo que virtualmente. Tem a Beatriz Lopes e coletivo Libre, Sirlanney, várias das garotas participantes da Zine XXX (por exemplo Aline Lemos, Bárbara Malagoli, Laura Lannes), revista SAMBA, Beleléu, meus amigos do Batata Frita Murcha, as minas da editora Piqui C’açucar, DW Ribatski, Rodrigo Okuyama, Eduardo Belga… São todas pessoas que eu admiro, posso acessar diretamente e conversar sobre questões de quadrinhos.

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  • Qual a forma de trabalho? Que material usa?

Desenho com grafite em papéis mais ou menos encorpados. Finalizo com canetas “fine” de expessuras diversas. Trato e coloro digitalmente por meio do Photoshop. Em geral, é isso, mas às vezes os projetos pedem outros materiais e procuro experimentar alternativas.

  • Você foi ao FIQ. Aconteceu, no evento, de um expositor tirando fotos de mulheres e postando no Instagram de forma misógina. Esse não foi o único caso no festival. Infelizmente, machismo e preconceito contra as mulheres ainda é algo frequente em convenções de HQs. Como você vê isso?

O episódio do FIQ foi patético, mas está gerando frutos significativos: está crescendo na internet uma rede de apoio entre mulheres consumidoras e produtoras de quadrinhos, através da qual estamos nos organizando e discutindo. A partir dela, inclusive, conseguimos uma nota de repúdio oficial do FIQ 2013. Várias testemunhas da postagem das fotos apontam para um único autor de quadrinhos. Foi, inclusive, publicado num blog um email onde o autor em questão confessa o abuso (apesar de ter sido mantida em sigilo sua identidade, existe essa prova da autoria do crime na caixa de emails de alguém).

Enquanto o autor não for processado legalmente, não podemos nos arriscar a escrachar o nome dele na internet, pois temos receio de contra-ataques. Seja qual for o desfecho desse episódio, já é uma vitória conseguir uma nota oficial do evento, admitindo a gravide do crime, e tanta repercussão do caso na internet. Acredito que isso se deva especialmente à participação ativa das quadrinistas nos eventos e desse encontro e troca que procuramos incentivar entre nós.

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  • Atualmente é comum ouvir que quadrinistas mulheres não têm seu trabalho reconhecido pelo fato de serem mulheres. Você concorda? Se sim, o que pode ser feito para mudarmos isso?

É a verdade. Um bom exemplo é a falácia do Mauricio de Sousa em Frankfurt: apesar de mulheres serem responsáveis pela produção da Turma da Mônica e Turma da Mônica Jovem em sua grande maioria e há décadas, essa lente grossa que é o machismo impede o homem e o mercado de atribuir o devido valor a esse trabalho, especificamente por serem mulheres que o fazem. É comum da sociedade patriarcal desqualificar a priori qualquer coisa que se relacione diretamente com a ideia de feminilidade, inclusive e especialmente o próprio corpo da mulher em si. Podemos mudar isso criando iniciativas que estimulem a atuação das mulheres no campo dos quadrinhos, seja como autoras, editoras, consumidoras, produtoras de eventos, jornalistas e blogueiras.

Precisamos produzir, publicar, participar dos eventos e botar as discussões pra jogo. É essencial que procuremos nos relacionar e nos organizar, ainda que possam existir ressalvas acerca dos conteúdos produzidos e discordâncias de opiniões individualmente, é importante que coletivamente reconheçamos estar sofrendo dos mesmos obstáculos. E, a partir disso, nos solidarizar e nos fortalecer como uma rede de apoio e troca. Acredito profundamente na força dessas ações.

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  • Você faz um quadrinho para a Revista SAMBA intitulado Garota Siririca. Por enquanto, poucas páginas foram publicadas. Já dá para saber que trata-se de uma menina ávida por conhecer o próprio corpo. Atualmente, essa ainda é uma questão marginal. Muitas mulheres encaram a masturbação como tabu. Conte-nos como começou a fazer esse trabalho. Por que Garota Siririca?

A ideia pra Garota Siririca surgiu a partir das minhas próprias descobertas sexuais. Como a maioria das mulheres, eu dizia não gostar de masturbação, até que, na disposição de me descobrir e me entender, percebi o quanto meu corpo e minha mente ficaram por muitos anos condicionados a uma mentalidade castradora, construída por uma educação sexual machista, cristã, moralista e violenta em si. À princípio, coisas engraçadas do processo de descoberta me fizeram ter vontade de desenhar a Garota Siririca, mas logo eu comecei a atribuir um valor político ao projeto.

Com a Garota Siririca espero incentivar principalmente mais mulheres a terem curiosidade acerca de seus corpos e a conversarem sobre masturbação. Pra mim, desenhar a GS tem sido libertador pra além dos aspectos sexuais. Tem transformado meu vocabulário, por exemplo, tenho me sentido mais livre pra pronunciar palavras (como siririca) que antes eu morria de vergonha. E eu sinto esse fato, aparentemente insignificante, como fruto de uma pequena, porém real, ruptura dos limites do espaço restrito em que a sociedade quer fazer caber minha experiência feminina.

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  • Onde mais podemos encontrar o que você tem feito? Tem alguma publicação impressa?

Tenho publicados, em impressão e virtualmente, dois zines chamados A Ética do Tesão na Pós-Modernidade, volume 1 e 2. Também organizo uma zine de mulheres, chamada Artemis, que tem publicada até a segunda edição, física e virtualmente, e está em processo de produção da terceira.

Costumo vender as publicações em eventos de quadrinhos, mas me contactando pela internet é possível adquirir cópias via correio. O lugar em que tenho compartilhado a maior parte das produções é na minha página de facebook. Por ela dá pra achar todos os outros projetos em que me envolvo.

  • Acrescente algo, caso queira! :)

Comecei a fazer quadrinhos há pouco tempo, mas sou feminista há alguns anos. Essa investida crítica envolve muitos desconfortos e é constante o medo de ser estigmatizada e excluída do role, mas sinto uma responsabilidade social muito maior e um desejo grande de ocupar o espaço e torná-lo mais inclusivo e acolhedor. Fiz amigas, amigos, aliadas e aliados importantes no pouco tempo de envolvimento com a área e, em geral, tem sido empoderador e excitante me envolver. A todas as mulheres que desejam participar ativamente da sociedade, do mercado e se fortalecer, no que diz respeito a questões feministas, tem em mim uma incentivadora e aliada!

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Links:

Besos! ;)

4 comentários em “Lovelove6 fala sobre mulheres e quadrinhos

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