Uma luta universal

Morar num país diferente é uma grande experiência, cheia de aprendizados e descobertas, mas também é um período que exige atenção, certas privações. É encarar de frente o desconhecido. É a primeira vez que vivo isso, em Madri. A língua não chega a ser um problema, pois logo de cara a gente se vira no “portunhol”, mas alguns hábitos são bem diferentes, como a alimentação, as músicas, os horários cotidianos – sim, eles realmente fazem a “siesta” e muita coisa fecha das 14 às 17 horas.

Estava ainda meio perdida na capital espanhola, quando, passeando pela Gran Via, uma das principais avenidas da cidade, me deparei com a seguinte frase em letras tremidas e corridas: “La revolución será feminista o no será” (A revolução será feminista ou não será). Parei. Foi meu primeiro sorriso por dentro. Meu primeiro muro fotografado por aqui – daquelas fotos que a gente tira só para guardar, sem imaginar que um dia vá ilustrar um texto.

Pela primeira vez na Espanha, senti que fazia parte de algo universal, como se não importasse que eu fosse brasileira. Era uma simpatia por uma luta sem território, uma sensação de pertencimento a algo maior que os limites de um passaporte. As mulheres daqui também precisam do mesmo que nós brasileiras, assim como as indianas, as africanas, as americanas…

Depois disso, parece que passei a ver sinais dessa luta em tudo quanto é canto. O feminismo estampa os muros de Madri, seja por iniciativa de coletivos independentes, seja em campanhas do governo ou num discreto cartaz numa parede de bar que faz questão de reforçar numa folha de sulfite que é um “Espacio libre de violencias machistas”.

E o povo espanhol me parece ser assim, engajado nas lutas que acredita. Protestos nas ruas são frequentes e respeitados, tenham eles 50 aposentados ou 5 mil militantes de algum partido político. No fim do ano, uma manifestação performática chamava a atenção dos turistas no meio da praça mais movimentada da cidade, a Puerta del Sol. Dezenas de pares de sapatos femininos pintados de vermelho, cada um com uma placa com estatísticas de violência contra a mulher. A cena era impactante. Muita gente parava para ler e saber mais sobre o coletivo Velaluz, que buscava apoio para a causa.

Muros de Madri (ESP). Fotos: Paula Rodrigues

Muros de Madri (ESP). Fotos: Paula Rodrigues.

Espanholas nos quadrinhos

Foi justamente nesse final de ano, durante o período de compras de Natal, que tive meu primeiro contato com a produção feminina espanhola de HQs. A rede de livrarias Fnac estava presenteando os clientes que gastassem a partir de 20 euros com uma revista incrível intitulada “Las chicas pintan mucho” (“As mulheres pintam muito”).

Fiquei muito animada com o destaque que as quadrinistas espanholas estavam recebendo de uma gigante do setor – esse tipo de ação de marketing dá uma baita visibilidade, não? –, porém, infelizmente, quando consegui passar na livraria para adquirir meu exemplar, a tiragem já estava esgotada. Não lançariam mais, nem era possível encomendar.

Tentando olhar “o copo meio cheio”, um ponto positivo dessa iniciativa foi me deixar uma lição de casa das boas: uma lista de quadrinistas de humor que estão se destacando hoje em dia escrevendo em espanhol. Mais para frente, espero falar um pouco de grande parte delas (Por enquanto, divido com vocês minha descoberta na listinha do final desse texto).

Reprodução do site da Ana Oncina (http://migre.me/t4Nhh), uma das autoras da revista "Las chicas pintan mucho".

Reprodução do site da Ana Oncina (http://migre.me/t4Nhh), uma das autoras da revista “Las chicas pintan mucho”.

Meu reencontro com as bibliotecas

Quando se recebe um salário em reais e se gasta com preços em euros, as bibliotecas podem ser grandes aliadas para manter a leitura em dia. Por isso, ao ser convidada pelo Lady’s Comics para colaborar com o portal, passei a visitar as unidades próximas à minha casa com bastante frequência. Até senti um pouco de vergonha ao me dar conta que em São Paulo, cidade onde morei por 15 anos, sempre priorizei as livrarias às bibliotecas e nunca me cadastrei em nenhuma.

Em Madri, é muito fácil fazer as carteirinhas das bibliotecas públicas; basta um documento com foto e elas ficam prontas na hora. É possível retirar até três livros (CDs ou DVDs) por vez, além de usar a internet, ler em poltronas confortáveis ou participar das atividades gratuitas.

Frequento em especial a unidade de Puente de Vallecas, que é pertinho de casa, e a do Parque de Retiro, minha favorita. A biblioteca do Retiro é linda, toda de vidro e com vista para o parque mais antigo da cidade. Periodicamente, as bibliotecas oferecem cursos, clubes de leitura, sessões de filmes, entre outras atividades.

Uma coisa que me chamou a atenção na biblioteca do Retiro é um espaço de sugestão de leitura ou cinema oferecido para os frequentadores. Por conta do dia 25 de novembro, o Dia Internacional contra a Violência de Gênero, um pequeno estande foi montado com opções de livros, histórias em quadrinhos e filmes sobre o tema. Um cine Fórum também foi organizado.

Foi nesse cantinho temático que conheci a HQ “Quiéreme bien – Una historia de maltrato” (“Queira-me bem – Uma história de maltrato”) , de Rosalind B. Penfold, que um dia volto aqui para falar mais.

Encantada e satisfeita com as obras que venho encontrando nas bibliotecas, recentemente fiz minha maior descoberta: uma livraria chamada nada mais, nada menos que “Mujeres”. “Mulheres”, minha gente! O local vem sendo passado de mãe para filha há três gerações, sempre com o enfoque em literatura escrita por mulheres ou obras com temática feminista, mas isso também é história para um outro dia.

Biblioteca do Parque do Retiro preparada para o Dia Internacional de Combate à Violência de Gênero. Foto: Paula Rodrigues.

Biblioteca do Parque do Retiro preparada para o Dia Internacional de Combate à Violência de Gênero. Foto: Paula Rodrigues.

Autoras de “Las chicas pintan mucho”:

Agustina Guerrero
Alejandra Lunik
Ana Belén Rivero
Ana Oncina
Ana Purna
Moderna del Pueblo
Pedrita Parker
Monstruo Espagueti
Mamen Moreu
Maitena
Laura Santolaya
Laura Pacheco
Las Rayadas
Susanna Martín
Sara Fratini

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