Vida de quadrinista: Espanha, Equador e EUA

HQs "Persépolis" (Marjane Satrapi), "Let's Pacheco" (Pacheco & Pacheco), "Vírus Tropical (Power Paola) e "Fund Home" (Alison Bechdel). Clique para ver as capas maiores.

HQs “Persépolis” (Marjane Satrapi), “Let’s Pacheco” (Pacheco & Pacheco), “Vírus Tropical (Power Paola) e “Fun Home” (Alison Bechdel). Clique para ver as capas maiores.

No tempo que passei no Brasil este ano, depois da Fest Comix, pude participar do 2º Lady’s Comics, que aconteceu em BH. Além de ter o prazer de conhecer as idealizadoras do site, me marcou muito a proximidade do público com as quadrinistas que participaram do encontro, seja compondo as mesas temáticas, dando oficinas ou expondo e vendendo seus trabalhos. O tipo de coisa que a gente não vê por aí todo dia.

Numa das noites, pude, inclusive, sair para jantar com diversas convidadas e, dentre as conversas que surgiram, falamos sobre uma característica que tem me chamado a atenção na produção feminina estrangeira: a dos quadrinhos autobiográficos. Desde que me mudei e embarquei na proposta de ser correspondente do Lady’s, só me deparei com obras com esse perfil, sejam elas mais realistas, dramáticas ou divertidas.

Antes disso, lá no começo do século, uma das primeiras autoras do gênero que conheci foi Marjane Satrapi, que contou sua história da infância difícil no Irã ao início da vida adulta na HQ “Persépolis” (2000). O sucesso foi estrondoso, a obra ganhou o grande público, foi traduzida para diversas línguas e até virou um longa de animação, em 2007, que ganhou vários prêmios e foi indicado ao Oscar, Globo de Ouro, BAFTA… Marjane foi diretora e autora do filme também.

“Persépolis” já figura entre os clássicos do gênero e pode-se dizer que abriu as portas para outras autoras contarem suas histórias. Marjane já foi “Lady do mês” aqui do site, láááá em 2010, e tem obras publicadas no Brasil. Se não conhece, vale dar um pulo na biblioteca ou livraria mais próxima!

Mas, como estou aqui para contar um pouco sobre três das minhas recentes descobertas, vamos a elas!

IRMÃS PACHECO, ESPANHOLAS “DA GEMA”

Abertura do capítulo "Quarta-feira" da HQ "Let's Pacheco" e cena com o sr. Pacheco, depois que soube que as filhas escreviam sobre a família: "Não vá me desenhar assim!".

Abertura do capítulo “Quarta-feira” da HQ “Let’s Pacheco!” e cena com o sr. Pacheco, depois que soube que as filhas escreviam sobre a família: “Não vá me desenhar assim!”.

Com a HQ “Let’s Pacheco! Una semana en familia”, as irmãs Carmen e Laura Pacheco, roteirista e desenhista respectivamente, relatam o cotidiano de uma semana na vida de sua família. Lançado pela editora Caramba! em 2011, com 72 páginas e capa dura, o livro é resultado do sucesso que as irmãs tiveram com as tirinhas lançadas na internet.

Os dias retratados correspondem à semana entre Natal e Ano Novo, quando Carmen volta de Madri para passar as festas com os pais e a irmã. As situações corriqueiras parecem se repetir ano após ano e faz com que muita gente se identifique com elas, seja na Espanha ou no Brasil. (Quem nunca? rs) A passagem do tempo é contada pelo consumo de um jamón, um presunto defumado vendido na forma de uma pata inteira de porco, ilustrado nas capas dos capítulos. Nada mais espanhol!

Assim como nos Simpsons, quem rouba a cena é o pai, Sr. Pacheco, que vive de roupão, implica com as filhas, tem opiniões duvidosas e, mesmo assim, acaba sendo responsável por momentos divertidos. O personagem, inclusive, acabou estrelando uma revistinha própria chamada “Señor Pacheco: agente secreto” (2015).

As publicações não chegaram ainda ao Brasil, mas o site www.letspacheco.com segue sendo atualizado com os trabalhos das irmãs, como a série “Problemas del primer mundo”, que conta o dia a dia de Laura fora da família e já virou livro (Ed. Lumen, 2014). Destaque também para as tirinhas de “La Restauradora”, que trazem uma personagem inspirada na dona Cecilia, senhora espanhola que, por conta própria, restaurou o afresco do ecce homo de uma igreja, o deixando irreconhecível e virando um sucesso mundial de memes.

"À primeira que me der um neto eu darei um anel de outro maciço de ouro do meu pai. O que dizem?". Cena de "Let´s Pacheco".

“À primeira que me der um neto eu darei o anel de ouro maciço do meu pai. O que dizem?”. Cena de “Let´s Pacheco!”.

Webtirinha de 2012 em que o sr. Pacheco reclama da superexposição de seu personagem.

Webtirinha de 2012 em que o sr. Pacheco reclama da super exposição de seu personagem.

Links úteis:
Pacheco & Pacheco: www.letspacheco.com
Carmen Pacheco: http://carmenpacheco.es/
Laura Pacheco: http://laurapacheco.com/

POWER PAOLA É AMÉRICA DO SUL!

Capas de capítulos da HQ "Virus Tropical".

Capas de capítulos da HQ “Virus Tropical”.

No lugar de retratar apenas uma semana de sua vida, a desenhista Paola Gavíria, que assina Power Paola, escreveu uma verdadeira autobiografia em sua primeira novela gráfica, “Virus Tropical” (2010). A obra de 160 páginas começa com a gravidez de sua mãe, que fora considerada impossível por muitos meses por conta de sua cirurgia de trompas. Seria a barriga o sintoma de algum vírus tropical?

Power Paola faz uso de um desenho orgânico, naïf e cheio de detalhes para retratar, com visão ácida e crítica, a história de sua vida entre Equador e Colômbia. Ao contar o desenvolvimento da identidade da protagonista, a história ganha caráter universal, passando pelos desafios típicos da infância e adolescência, conflitos familiares, adaptação à escola, mudanças de cidade, críticas à religião, os primeiros contatos com as drogas (e o impacto dos cartéis na vida cotidiana), a descoberta do sexo e a busca por encontrar seu espaço no mundo.

Apesar dos temas sérios, a autora também confere um toque de humor ao retratar seu pai, um ex-sacerdote que dá missas em casa, ou a mãe que lê a sorte nas peças de dominós. A vivência com as irmãs é bastante abordada, desde as relações de admiração e ressentimento aos afastamentos não planejados.

“Virus Tropical” foi lançado na Espanha pela Penguin Random House e foi traduzido para o português (editora Nemo, no Brasil!), inglês e francês. A autora, que nasceu em 1977, estudou Artes Plásticas na Colômbia e segue trabalhando com desenhos e colaborando com fanzines pelo mundo. A novidade é que graças a um crowdfunding e uma parceria entre os estúdios Timbo e IKKI Films, a história também está virando um filme de animação. Não vejo a hora!

Para mim, uma das cenas mais emocionantes: a despedida de Paola de uma de suas irmãs. Até parecia ouvir a música do Pink Floyd. Pura identificação!

Para mim, uma das cenas mais emocionantes: a despedida de Paola de uma de suas irmãs. Até parecia ouvir a música do Pink Floyd. Pura identificação. ;-)

Cena da animação que está sendo produzida. Link para o trailer aí embaixo!

Cena da animação que está sendo produzida. Link para o trailer aí embaixo!

Links úteis:
Power Paola: http://powerpaola.blogspot.com.es/
Site da obra: www.virustropical.com
Trailer do filme: https://vimeo.com/69897793
Making of do filme: www.virustropical.com/making-peli/

A “FUN HOME” DE ALISON BECHDEL

CENA 1: Nas minhas primeiras lembranças, a presença do meu pai era sombria, má. Quando chegava do trabalho, caía um manto frio sobre o agradável reino em que minha mãe, Christian e eu passámos os dias. CENA 2: Enquanto o homem nos mostrava o lugar, senti uma súbita vontade de que não soubesse que eu era uma menina. "John, vem aqui!"; "Quê?"; "Me chame de Albert em vez de Alison."; "Por quê?"; "Faça isso." CENA 3: Pai: Não pode sair jantar desse jeito. Parece uma missionária. Alison: Você que me comprou essa saia estúpida.

CENA 1: Nas minhas primeiras lembranças, a presença do meu pai era sombria, má. Quando chegava do trabalho, caía um manto frio sobre o agradável reino em que minha mãe, Christian e eu passámos os dias.
            CENA 2: Enquanto o homem nos mostrava o lugar, senti uma súbita vontade de que não soubesse que eu era uma menina. “John, vem aqui!”; “Quê?”; “Me chame de Albert em vez de Alison.”; “Por quê?”; “Faça isso.”
CENA 3: Pai: Não pode sair jantar desse jeito. Parece uma missionária.
Alison: Você que me comprou essa saia estúpida.

Para fechar a seleção, deixei a obra de Alison Bechdel, que, apesar de ter a edição brasileira em casa (Ed. Conrad), só fui conseguir lê-la por aqui, em espanhol. Escrita em 2006 em inglês, seu título “Fun Home” não foi traduzido nas edições estrangeiras e faz uma brincadeira com o significado literal das palavras “casa da diversão” e um jogo de palavras para “casa funerária”, negócio tocado por seu pai. O subtítulo espanhol é “Una família tragicómica”.

Simplesmente devorei as 244 páginas em dois dias! Alison consegue cativar o leitor com sua narrativa autobiográfica, que também aborda os dilemas da infância, as inseguranças, o desenvolvimento de sua personalidade e, claro, os conflitos familiares. Entre os pontos principais da trama estão a relação tumultuada com o pai, no qual identificava tendências homossexuais, e a descoberta de sua própria sexualidade.

Gostei muito do ritmo com que a história é contada, de forma profunda, os detalhes trabalhados na hora certa e o desenho fluido, limpo e em tons aquarelados de azul. Quando li, pensei que me lembrava Will Eisner e agora, pesquisando, descobri que a autora ganhou o prêmio que leva o nome do quadrinista justamente por essa obra em 2007!

A HQ não virou animação, mas foi transformada em musical da Broadway. Em cartaz em Nova York desde 2013, a peça deve começar a excursionar pelos Estados Unidos em outubro de 2016. Imagino que esteja escrevendo para “convertidas(os)” aqui, mas, para quem ainda não se convenceu de que histórias em quadrinhos podem ser grandes obras narrativas, por favor, leia “Fun Home”.

"Se não podíamos criticar meu pai, mostrar-lhe afeto era uma aventura ainda mais difícil. Não éramos uma família fisicamente expressiva, por assim dizer. Porém, uma vez senti uma vontade inexplicável de lhe dar um beijo de boa noite. Como tinha pouca prática nesse tipo de gesto, só fui capaz de pegar sua mão e beijar suavemente os dedos, como se fosse um bispo ou uma dama elegante, antes de sair correndo do quarto, morta de vergonha". (Fun Home, 2006)

“Se não podíamos criticar meu pai, mostrar-lhe afeto era uma aventura ainda mais difícil.
Não éramos uma família fisicamente expressiva, por assim dizer. Porém, uma vez senti uma vontade inexplicável de lhe dar um beijo de boa noite. Como tinha pouca prática nesse tipo de gesto, só fui capaz de pegar sua mão e beijar suavemente os dedos, como se fosse um bispo ou uma dama elegante, antes de sair correndo do quarto, morta de vergonha”. (Fun Home, 2006)

Links úteis:
Twitter: https://twitter.com/alisonbechdel
Facebook: https://www.facebook.com/alison.bechdel/
Bio na Wikipedia: hhttps://pt.wikipedia.org/wiki/Alison_Bechdel
Teste de Bechdel: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teste_de_Bechdel

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