Wabi-Sabi

sketchbook de Giovana Milanezi

Sketchbook de Giovana Milanezi

Tem certas coisas que a gente costuma achar que já está careca de saber. Mas, com a rotina cansativa, a ansiedade, as zilhões de pendências e preocupações, a gente deixa que essas certezas se percam pelo caminho. Nós nos deixamos levar por nossos desejos e medos mais primários. Ser sempre você mesmo, encontrar a felicidade nas coisas simples… Valores como esses a gente conhece bem, mas nós simplesmente vivemos nos esquecendo disso. Não é à toa que tantas histórias, filmes e canções martelam nessas mesmas teclas já há muito tempo. Hoje, eu gostaria de bater numa dessas teclinhas.

sketchbook de Giovana Milanezi

Sketchbook de Giovana Milanezi

Admirar as falhas e imprecisões de todas as coisas, aprender a enxergar beleza ou possibilidades em todas elas, observar, sentir e pensar sobre as coisas e a existência são exercícios de Wabi-Sabi.

Wabi-Sabi é um conceito japonês que corresponde à beleza do que é imperfeito, incompleto e transitório.

doodles de Amanda Grazini

Doodles de Amanda Grazini

Por se tratar de um sistema estético complexo e abrangente, é um pouco difícil explicá-lo com precisão em termos ocidentais. Leonard Koren, norte-americano autor do livro Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets and Philosophers, descreve o Wabi-Sabi como o traço mais proeminente e característico daquilo que nós pensamos ser a beleza japonesa tradicional e que “ocupa grosseiramente a mesma posição no panteão japonês de valores estéticos que os ideais gregos de beleza e perfeição ocupam no Ocidente”.

doodle de Amanda Grazini

Doodle de Amanda Grazini

O Wabi-Sabi é a arte do que é pouco convencional, da beleza que passa desapercebida aos olhos dos menos criativos, aos olhos de quem não está atento à elegância discreta das coisas simples e ao calor das coisas rústicas. Para Leonard Koren, “existe uma rachadura, uma rachadura em tudo. E é assim que a luz consegue entrar”.

sketch de Samanta Flôor

Sketch de Samanta Flôor

Uma cicatriz, uma porção de sardinhas, um coque desajeitado que a menina faz às pressas no cabelo por causa do calor, um tênis desgastado… Essas coisas evidenciam a fragilidade das coisas, carregam passagens de suas histórias, carregam vida e significados subjetivos.

sketchbook de Samanta Flôor

Sketchbook de Samanta Flôor

Do mesmo jeito, aquele rabisco à margem do seu caderno – de quando você estava distraído na aula de Semiótica – pode ter potencial. Aquele rascunho cheio de “erros” que você se envergonha de mostrar ou aquela página do sketchbook que você gastou com traços aleatórios para testar uma caneta nova tem uma beleza muito particular.

sketch de Samanta Coan

Sketch de Samanta Coan

A arte criada de forma direta e intuitiva é também um exercício de Wabi-Sabi.

caderno de Samanta Flôor

Caderno de Samanta Flôor

A imprecisão, um jeito de colorir sem respeitar as linhas, os muitos risquinhos fora do lugar, uma manchinha que marcou a folha, sem querer, acabam por tornar o seu desenho único.

sketchbook de Giovana Milanezi

Sketchbook de Giovana Milanezi

A busca obsessiva pela perfeição e a preocupação em corresponder às expectativas dos outros acaba por trazer insegurança e limitações ao artista. Uma pincelada insegura “trava” o movimento do desenho. Tem desenho que só “sai” depois de rabiscar muito, errar e experimentar muito. Desenhar tem mais a ver com percepção, personalidade e sensibilidade do que com habilidade motora. Tem a ver com descobrir formas, relações, contrastes e linhas que apresentam seu jeito de enxergar o mundo.

doodles de Amanda Grazini

Doodles de Amanda Grazini

Escolhi sketches e páginas inteiras dos cadernos de algumas meninas talentosas para ilustrar esse post. Para conhecer melhor o trabalho delas, visite:

Flickr da Giovana Milanezi: www.flickr.com/photos/giovana_milanezi

Flickr da Samanta Coan : www.flickr.com/photos/samanta_coan

Site oficial da Amanda Grazini: www.amandagrazini.com

Site oficial da Samanta Flôor: www.cornflake.com.br

Para saber mais de Leonard Koren, visite seu site oficial: www.leonardkoren.com (em inglês)

24 comentários em “Wabi-Sabi

  1. Na faculdade o professor explicavda que estávamos errados em atropelar todo o processo criativo em busca da arte final perfeita. Que esta racionalidade dificultava a fluidez dos desenhos, tirando sua essência. Que alguma imprecisão, risquinhos, marcas de pincel muitas vezes é o que davam um charme no final, que o tornava único.

    Escrevi isso num post do ano passado sobre “Desenhar certo por linhas tortas”. Só depois descobri que existia o Wabi-Sabi. ;-)

    http://www.ilafox.com/2009/08/desenhando-certo-por-linhas-tortas.html

    • Adorei seu texto, Ila! Essa do “trabalho que começa meio ‘nhé’ e surpreende no final” vive acontecendo comigo. É só ir arriscando, rabiscando… acaba saindo um desenho melhor do que você imaginou no comecinho. Mas, às vezes, acontece também de “quanto mais você tenta consertar um ‘errinho’ à toa, pior vai ficando a situação”, né, haha!

    • Ei, seu comentário é que me chamou a atenção para isso. É verdade! Tem o post da Ila ali, tem as ilustrações da Lupe, tem os trabalhos da Irena também (tem o link pro blog dela e, no blog, tem link pro Flickr dela… tem uns trabalhos bem legais lá).

    • Bacana!
      Engraçado Lu, que eu estou há meses querendo escrever um texto sobre o tema. Vinha juntando material, citações e artigos para uma hora sentar e escrever sobre essa “beleza do erro, do engano, da imperfeição”, como diz o Zeca Baleiro. Mas aí as coisas a fazer foram se impondo, as obrigações, e tudo foi ficando pra lá. O seu texto me reacendeu a idéia e a vontade. Quem sabe?
      Agora, tem uma coisa que eu acho importante a gente sempre ter em mente quando fala em wabi-sabi (e quando digo “a gente”, quero dizer nós, os ocidentais) que é o fato de que esse brilho da imperfeição vem naturalmente. É aquele tênis que se gastou no uso, na vida; aquela cicatriz que a gente ganhou panhando amoras, as rugas dos anos muito (bem!) vividos.
      Aquele jeans que veio já rasgado da fábrica não é wabi-sabi. Pode ter uma inspiração, uma vibe wabi-sabi, mas não é.
      A beleza do wabi-sabi não se faz, não se reproduz: acontece com o curso das coisas. A beleza é justamente o fato de que aquilo, aquele “defeito” representa uma vivência, uma história, que traz nele um monte de significados (quantas histórias podem contar aquelas rugas?): mais do que isso, wabi-sabi é reconhecer que “a vida como ela é” é bonita. Sem maquiagem. Sem photoshop.

      Ah se todo mundo se desse conta disso…

    • Lucas, você disse tudo. Quando é aquela coisa feita “com defeitinhos propositais”, tudo muito “forçadinho”, a beleza que o wabi-sabi reconhece se perde. Como você disse, mesmo que fique com cara de coisa que se desgastou com o tempo, não é a mesma coisa.

      Fiquei conhecendo o nome wabi-sabi justamente através desse texto do Hiro, há uns meses atrás. Bela dica, Ila e Lucas!

  2. Pingback: Ela está de volta! «

  3. Tomara que não seja tarde demais pra postar um comentário xD.Cheguei aqui faz pouco tempo.Coisa de mês. Desde então não parei de visitar.Despertou em mim ,mais ainda vontade de desenhar.Não sei o que eu vou fazer ainda,mas esse blog me inspira muito.Wabi -Sabi..será que é isso ai que eu faço nos cadernos?(rsrs).
    Quando se procura o universo feminino pra hqs,entre outras coisas,eu notei que eles acabam fazendo a gente acreditar que não estamos lá.De uma forma fantástica ,achei esse blog e bem..me senti mais incluída no mundo.
    Parabéns a todas pelo excelente trabalho!!!

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